quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Correspondência

                Ao longo da minha jornada houve cartas que não me foram correspondidas, seja à minha pessoa, seja à carga que as rabiscou de tinta. Mas existe um momento em particular, no qual as minhas cartas eram respondidas e é este período que eu tenho a delicadeza de o recordar. Chamo a este instante de amor anónimo sem o ser ou de um simples amor não correspondido.
                Tudo começou no Secundário quando entrei para uma turma pacata de letras. Passando à frente. No dia em que recebi o meu primeiro teste de Português, a professora pediu para falar comigo e com uma colega minha. Pelos vistos, tínhamos sido as melhores notas da turma e ainda por cima tivemos a mesma nota. Não havia vírgulas entre os dois números ou casas decimais que os prolongassem, era a mais bela nota, do mais requintado valor, era um vinte.
                Foi nos pedido para que compuséssemos uma pequena peça de teatro, nada mais. As nossas ideias vinham das cartas que nós redigíamos um ao outro (Meu deus, éramos tão antiquados) durante os intervalos, não falávamos muito com os nossos lábios, se não ser um olá ou um tudo bem, um txau ou até já, etc. As primeiras e verdadeiras palavras surgiram posteriormente à nossa peça, já na rua ela disse que gostava de mim e retribui-lhe com termos diferentes.
                Agora os nossos lábios já falavam e tínhamos tornado bons amigos, melhores amigos. Porém, algo mudou. Não os sentimentos mas o simples facto de ela namorar e ter perdido a vontade de escrever. Pelo simples facto de ela estar apaixonada pelo meu melhor amigo.
                Relembro o nosso diálogo à saída da peça, na rua:
                - Gosto de ti. – Disse ela.
                - Posso-te dizer algo com toda a sinceridade?
                - Sim, podes.
                - Eu estou apaixonado por ti, não sais da minha cabeça, imagino, não, juro-te que estás a viver no meu coração desde do momento em que nos conhecemos.
                -Lamento, não queria que isto acontecesse, nem eu imaginava que isso pudesse acontecer, mas eu só te vejo como amigo, nada mais.
                A minha alma apaga-se, a noite torna-se mais escura, as lágrimas congelam-se nos vidros oculares, mesmo assim:
                - Posso-te acompanhar a casa e irmos conversando?
                - Sim.
                Encontrava-me no Décimo Segundo ano e nós pouco tínhamos para falar, continuávamos melhores amigos e um dia ela veio me falar pelo msn, algo que nunca tínhamos feito na vida, ela disse-me que estava imensamente apaixonada por um rapaz, lá fez a descrição e pimba, tinha que acertar logo no meu melhor amigo. Mal lhe contei quem era, ela pediu-me desculpa, que não sabia.
                Tudo mudou a partir daí, o meu melhor amigo descobriu um dia as tais cartas e queimou-as, ela com medo parou de escrever, parou de estudar após os exames do décimo segundo, aos quais, ela não teve sucesso.
Eu por sua vez lá consegui, com um grande esforço para esquecer tudo e pôr a informação necessária cá dentro. A dor assolava-me mais que o ego da incompetente amizade dele e da forma como ele via as raparigas, como uma aposta para o futuro.
Anos depois, encontrei essa mesma miúda numa biblioteca municipal, a ler. Foi então que conversámos e durante esse diálogo ela revelou-me que eles tinham acabado, era mais ela, na qual a causa tinha sido a minha pessoa e que ao longo de todos aqueles anos era por mim que estava apaixonada.
Agora estamos juntos e vivemos a vida a compor como esta deve ser vivida: Correspondida.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Bela arte

“O amor é uma arte, uma bela arte. Mas hoje, infelizmente, nem todos são artistas.”
Hoje, agora, neste momento, vou dar a este texto um pouco do amor da minha vida, um pouco de lágrimas do meu sofrimento por ela, um pouco dos nossos beijos, olhares, sorrisos, abraços, brincadeiras. Vou dar isto ao Mundo e fazer disto, a minha arte.
Traço com a ponta do meu lápis, uma linha sobre as curvas do teu corpo. Começo pelos teus pés que se encontraram sempre em sintonia com os meus, quando andávamos pela rua de mão dada, sem norte, sem sul. Só nós. Esboço um brilho no teu olhar castanho, lembro de me ver no seu reflexo a sorrir como nunca. A correr atrás do autocarro para te poder ver por mais uns momentos.
Desenho e pinto os teus lábios de vermelho claro, porque tu nunca foste de pintar-te, sinto-os a tocarem ao primeiro beijo estão secos, ao segundo encontram-se molhados, ao terceiro e a partir desse beijo, não existe mais ninguém que eu deseje. Ilustro os nossos abraços com cores amareladas, alaranjadas e avermelhadas. És tudo para mim.
 Amei-te, desenhei o meu coração num papel e entreguei-o como nunca fizera a ninguém, escrevi só para a tua pessoa, fui-te fiel e fui o Homem que deu-te a maior prova de amor. Fui tudo: Desde louco, apaixonado, amigo, namorado até ao artista da tua obra-prima. O que eu mais desejava era que me compreendesses, que crescesses um pouco, que lutasses mais por ti e menos por mim, porque eu dei-te o que tu não tinhas e isso eventualmente tornou-me no que sou agora:
Um artista sem coração, um artista que procura na escrita um novo amor, um amor diferente e um amor que lhe devolva o que lhe falta. Os Homens amam da mesma forma todas as mulheres.
Já os artistas amam cada mulher de uma forma única, com um único sentimento, com uma única lembrança e recordação. Como um único e simples pedaço da sua vida.
É por isso que me recordo do teu rosto e de tudo o resto, não preciso de fotografias ou dos meus textos para me avivarem a memória, tudo isto porque vivi cinco meses e meio contigo, a chorar, a sorrir. Por azar, chegou ao fim. Contudo, continuo a dizer que foi o melhor para nós.
Com amor, o teu ex-apaixonado: Filipe Graça.