terça-feira, 17 de maio de 2011

Jardim

Ela não me proibiu de entrar no seu jardim, proibiu-me sim de a querer encantar com rosas, com bombons, com poemas, com cartas de amor, com toda a magia de um romancista. Ela não acreditava em cavaleiros andantes, príncipes encantados. Não acreditava em mim, no meu ser quando eu lhe dizia: “Quero ficar contigo “.

Agora chora de saudade, saudade de não me ter, saudade de me ter proibido, mas sou eu que me sinto cansado em escrever-lhe cartas, poemas e enviar-lhe rosas todos dias, perdi-me neste labirinto do meu coração, neste jardim sem saída, neste amor proibido.

Eu fiquei contigo mesmo quando não querias encantos, mas nunca pensei que chorasses de saudade e eu, eu nunca pensei em perder-me algures na tua terra do nunca.

sábado, 14 de maio de 2011

Vendedor de Esperança

«Atravesso esta areia que me queima, que me queima os meus pés nus, pouca a roupa que tenho e este Sol arde e rompe-me a pele com os seus raios. Meu burro, o meu animal de estimação que carrega a minha água para eu vender, e gastar o dinheiro para podermos comer e sobreviver. Alguém que me castigue, porque ele merecia uma vida melhor, tal como eu. Maldita seja a guerra na minha terra de ninguém.

Agora, cai a noite como se tratasse de um nevão e o frio que vem com ele passa pela minha tenda, aperta-me o pescoço, sufocando-me até não poder mais. Eu, eu vivo neste Deserto, agora ocupado pela guerra, pela miséria, pela pobreza mais pobre de todos os meus dezoito anos e é a isto que chamam lutar pela independência, lutar pela liberdade? Que ignorância a minha pelo tão pouco que sei, aliás como posso saber? Não há escolas por aqui…»

Isto escrito por Mohamed Salem Ali, e agora vejo este rapaz pela minha lente, neste deserto onde o ser mais frágil encontra-se mesmo à minha frente, tiro uma foto e vejo, vejo uma estrela por detrás dele que carrega uma intensa luz, uma luz de esperança e talvez seja isso que ele venda, uma água com esperança de que um dia a guerra acabe.


------------

Texto relacionado com a 4ª foto da coluna da esquerda

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Barco

Encontro-me à deriva no papel, baloiçando para os lados, atracado na minha casa à espera de partir, à espera de um lugar onde o destino me possa levar. Grito e libertam-se as amarras que me prendem.

Agora, vou por este papel, baloiçante e molhado, mas vou devagar para poder contemplar o que me rodeia. À direita tenho fábricas, rochas numa colina verde, mas incapaz de mudar uma paisagem alterada pelo Homem, pobre é agora o verde que não me deixa ver o seu esplendor, há alguns anos eu admirava-o, agora mal o vejo, cegado pela poluição.

À esquerda o meu destino, longe está ele, mas a ele vejo-o quase na perfeição, um cheiro de liberdade por poder andar durante mais algum tempo por este rio. À minha frente, vejo outros iguais a mim no estaleiro, uns a serem reparados por causa das más atitudes que tiveram ou erros que cometeram, e outros vejo-os a passarem por mim com olhos de quem não vê, infelizmente.

Para trás, observo o rasto do meu óleo e o meu porto, casa que mais tarde terei de voltar e ficar preso por ter ordens a cumprir. Mas certamente que trinta minutos de liberdade compensam uma meia-vida atracado e sem rumo.