quinta-feira, 12 de maio de 2011

Barco

Encontro-me à deriva no papel, baloiçando para os lados, atracado na minha casa à espera de partir, à espera de um lugar onde o destino me possa levar. Grito e libertam-se as amarras que me prendem.

Agora, vou por este papel, baloiçante e molhado, mas vou devagar para poder contemplar o que me rodeia. À direita tenho fábricas, rochas numa colina verde, mas incapaz de mudar uma paisagem alterada pelo Homem, pobre é agora o verde que não me deixa ver o seu esplendor, há alguns anos eu admirava-o, agora mal o vejo, cegado pela poluição.

À esquerda o meu destino, longe está ele, mas a ele vejo-o quase na perfeição, um cheiro de liberdade por poder andar durante mais algum tempo por este rio. À minha frente, vejo outros iguais a mim no estaleiro, uns a serem reparados por causa das más atitudes que tiveram ou erros que cometeram, e outros vejo-os a passarem por mim com olhos de quem não vê, infelizmente.

Para trás, observo o rasto do meu óleo e o meu porto, casa que mais tarde terei de voltar e ficar preso por ter ordens a cumprir. Mas certamente que trinta minutos de liberdade compensam uma meia-vida atracado e sem rumo.

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