quarta-feira, 15 de junho de 2011

Chove

Chove, chove sem parêntesis, chove entre aspas uma acidez que à muito se acumulou neste céu. Gota a gota, escorre lentamente nesta enorme nuvem, seguidamente cai e corrói a bancada, mas não o suficiente para a corroer de todo.

Pouco a pouco, vejo a formar-se um rio ao longo da mesma, capaz de reflectir a tal nuvem, as tais gotas, estas que lhe foram um sacrifício suster. Não quis e até fez de tudo, mas talvez já devia ter chovido há mais tempo, quiçá tivesse livrado da dor.

Tanta gota, tanta acidez que não pára de cair, e de certeza que rio vai galgar as margens. Galga, salta por ali a fora e começa a escorrer até ao chão, mas vejo a soltar-se através de um minúsculo fragmento de luz que atravessa a água que agora cai desta enorme cascata, dá-se o reflexo, forma-se o arco-íris.

Ele limpa-lhe a sua nuvem, revela-lhe um sorriso e aclara o seu céu.

«Chorar, cerrar os olhos, acordar e transformar a noite num belo dia.»

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Esferas de Papel

Cinzentos, frios, mortos, meio cegos, frágeis meras esferas de papel por onde já não escorre tinta e as palavras que se podem ler nelas, vivem dias de solidão! Até parece pecado existir um Ser amaldiçoado. Agora, só existe a Lua sobre o horizonte que se encolhe sobre o mar, tristeza.

O que o Mundo era, o que o Mundo se tornou e eu pouco posso ver o futuro deste, levanto-me da fria areia, tiro a roupa e caminho até à água glacial, nunca senti tanto frio em toda a minha vida, nu contínuo e não desisto em querer morrer com ele.

Durante a minha vida tive a sorte de correr todo o Mundo, conhecer locais que ninguém imagina, mas não conheci nenhum lugar nele como este, é frio, é pálido, a luz só dura metade do ano, tal como a minha força e a outra metade é um descanso.

Sinto-o a parar aos poucos enquanto entro na água, não paro e nado até não ter pé… Penso que aqui deve chegar, olho para cima, vejo a vida a passar diante das minhas esferas de papel, e sinto aquele cheiro da maldição que me pregaram, da podre imortalidade que já há muito parou o meu coração.

Só não parou os cinzentos, frios, mortos, meio cegos olhos, lembranças, memórias de uma vida amaldiçoada sem perdão a viver num Mundo há muito extinto. Amanhã é a outra metade do ano em que vou voltar a viver outra vez, porque tenho força, calor, luz e até tinta para voltar a escrever, vou vestir-me e partir para outro lado.

Viver é um dia de cada vez, amaldiçoado ou não, só se vive uma vez.