sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Estrelas

No meio de um descampado, deitei-me levemente na relva como se tratasse de uma pena a cair, vinda lá do céu. Tinha vindo de uma noite e nada tinha bebido, mas sentia-me cansado e senti que aquele local era o ideal. Da mesma forma que cai, senti os meus pensamentos fluírem, conseguia ouvir os sons da natureza a entrarem na minha cabeça e deixarem-me num estado, tudo menos comum.

Fiquei num estado puro, onde encontrei o equilíbrio perfeito entre o meu corpo, a minha mente e a Natureza que me rodeava. O meu cansaço era tanto que eu sentia-me preso aquele lugar e dali não queria sair, mas era de notar que alguém já tinha lá estado. Estava tão liberto, que podia mesmo sentir um aroma feminino, uma fragrância intensa e inquietante.

Uma rapariga ou uma jovem mulher que poderia lá ter estado. Resolvi deixar um bilhete na maior árvore que havia ali ao pé. Quando me deparei frente a essa mesma árvore, pude ver vários pequenos papeis pregados. Mas não conseguia ver todos, então contornei-a. Os papéis eram mais que imensos, eram aos milhares e pareciam compor uma figura.

Afastei-me e a figura ganhava contornos. Afastei-me mais ainda e ao longe via uma rapariga sentada a cavalo, a correr até mim. É por isso que aquele aroma era tão forte, à velocidade que ela andava naquela zona, podia espalhar o seu encanto por todo aquele lugar.

Então debaixo das Estrelas acordei e ao levantar-me vi uma rapariga montada a cavalo, a desaparecer ao longe…

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Papel

- Olá Papel.

- Olá, que tens tu?

- Oh, eu não tenho nada.

- Não tens nada? Como podes dizer isso? Estás com uma cara de quem teve a chorar e estás a sangrar do nariz, não me enganas meu rapaz.

-Oh Papel, estou nervoso é por isso que estou a sangrar, os meus pais…

-Os teus pais? Que se passa, conta-me!

-Vais-me deixar tatuar o teu corpo, outra vez? Vais querer aliviar o meu fardo, antes de eu cometer alguma loucura? Não sei como tu não és capaz de te cansar de mim.

-Sabes uma coisa? Eu até sentia falta da tua caneta sobre as minhas linhas, eu já carrego o teu mundo no meu corpo e não me viste a rasgar ainda, pois não?

-Não, obrigado Papel. Deixa-me só pegar na minha caneta que já tem pouca tinta, vou tentar escrever tudo e mesmo que não o faça, voltarei cá ter contigo.

-Não precisas de agradecer-me, eu estarei cá sempre para ti.

-Vou começar. Prometo que não vai doer muito.

-…

“Estava sentado à frente do meu computador, como é habitual. Já tinha acabado de jantar. Esperei que a minha mãe se levantasse e fosse à rua ou à casa de banho, para eu poder despejar a garrafa do vinho. Esperei e esperei, até que tive oportunidade para tal. O problema é que eu não encontrava a garrafa em lado nenhum, porque ela já estava vazia.

Voltei para o quarto, antes que a minha mãe fosse sair da casa de banho e me apanhasse a coscuvilhar. Ela voltou para a cozinha e o meu pai foi para lá. Foi ai que começou a discussão, as boquinhas tristes de um ao outro. Bem, isso não foi o pior. Porque o pior vinha a seguir.

A minha mãe começou a empurrar o meu pai para fora de casa, porque ele ia para o café, onde anda sempre metido durante horas e horas. Não faz nada em casa, apesar de ficar a maior parte do dia a trabalhar. Ele não saiu, ficou cá dentro. Foi mais ou menos ai, que a minha mãe pregou uma chapada ou um soco no meu pai. Ele estava agarrado ao rosto.

Eu intervim. Pus-me entre os dois e perguntei à minha mãe se era com violência que ela resolvia as coisas, ao qual ela respondeu-me que sim. Então eu numa manobra desesperada, fui para o meu quarto, peguei no meu telemóvel e liguei para a polícia. A minha mãe veio atrás de mim e quase que me arrancou o telemóvel da mão. A minha irmã pôs atrás de mim nesse momento.

Eu já não estava em mim e ainda bem que não, senão não tinha coragem de dizer que, eles os dois já não eram pais para mim, que eu já não sentia isso. Que tinha vergonha de trazer os meus amigos cá para casa, por causa das vergonhas que eles me causam ou podem causar. Não só a mim, mas também à minha irmã. Chamei à minha mãe de bêbeda e ao meu pai de miserável.

Dei-lhes opção de escolha entre os problemas deles ou eu e a minha irmã. Tranquei a porta do quarto e vesti-me rapidamente, já não podia estar debaixo de uma chuva de meteoros que me incendiavam o quarto. Pior dos infernos, sai de casa e disse-lhes a mesma coisa, que para mim eles já não eram os meus pais. Descia as escadas do prédio o mais rápido possível e fui pela rua abaixo até à baia do Seixal. “

-Papel a minha caneta está a deixar de escrever, que faço agora?

-Salta o que tiveres de saltar, mas não pares de deitar cá para fora o que tens de deitar.

-Está bem Papel.

“Dei a minha volta pela Torre enquanto me ligavam de casa e a minha mãe me mandava mensagens a dizer que se não voltasse para casa, que iria acontecer um disparate. Como é que era possível ter a lata de fazerem coisas tristes, vergonhosas, infantis e ainda me ameaçar? As pessoas sabem descer muito baixo, mesmo elas sendo o nosso pai ou a nossa mãe.

Às vezes preferia passar fome como muitos passam nos Países em vias de Desenvolvimento, porque os Pais não dão mais aos seus filhos, porque não podem. Mas ao menos dão-lhes o que eles mais precisam afecto, força para lutar e um lugar de abrigo. O ser humano é capaz de viver sem comer, sem beber, mas é incapaz de viver sem amar ou ser amado por alguém.”

-Papel, já acabei.

-…

-Porque choras?

-Se não te tivesse a ti, ninguém me usaria. Ninguém me daria a importância que tu dás e mesmo assim eu fujo de ti, porquê?

-Não faz mal Papel, já podia ter escrito um livro, é certo, e já ter algum dinheiro, mas o dinheiro não me trás felicidade. Só mete comer na mesa e, acredita em mim, eu às vezes também fujo de mim e de toda gente.

-Não o devias fazer.

-Eu fujo para ser livre, para ser um pouco feliz e para estar contigo. O que era de mim sem ti? Nada e certamente, eu já não estaria cá há muito tempo. Papel, és o meu eterno companheiro.

-E tu o meu, Caneta.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Primeira vez - Poema

Pela primeira vez, senti o calor do sol

Pela manhã, o frio gelado pela noite,

Pela madrugada fora vi cristais de dor

E na manhã seguinte, chamei-te de amor.

domingo, 21 de novembro de 2010

O rapaz do Conto de Natal

Sempre naquela última semana antes do Natal, ele relembrava-se de todos os maus momentos, de todas as vergonhas e de todos os azares pelos quais tinha passado nesse dia, que para uns era tão especial, mas para ele era um dia como um outro qualquer. Todas as memórias de desgosto, vergonha e dor que tinha faziam-no sentir raiva e ódio sobre si.

Esse dia era sempre marcado pela chegada do pai a casa num estado alcoólico desagradável, trazendo consequências para a mãe. Esta sujeitava-se a ficar com a cara bolachada e um corpo cheio de nódoas negras, enquanto o rapaz se escondia dentro do armário e via tudo o que se sucedia. O pai envergonhava-o tanto que este não conseguia arranjar amigos e isso deixava-o desesperado e fraco, por não ter ninguém que o pudesse ajudar. Eram estas as memórias que tornavam o Natal tudo menos especial.

Então ele chorava à beira de uma janela do seu quarto, onde podia ver outras crianças a brincarem na neve com uma felicidade enorme, da qual ele tinha inveja. As lágrimas que caíam pelo seu rosto, que rapidamente se congelavam e traziam as suas memórias à deriva. Uma dessas lágrimas parecia um pequeno cristal que, ao cair-lhe do rosto e ao ver que se quebrava no chão, partiu a sua dor em mil pequenos pedaços.

Algo que nunca lhe tinha acontecido. Foi nesse momento, que ganhou coragem e força para lutar contra aquele pesadelo que já durava há uns oito anos, pelo menos daquilo que ele se lembrava. Porque se existia alguém que merecia, nem que fosse só por um dia sentir a verdadeira essência do Natal, era ele.

Foi preparar uma mala, pôs nela dois pares de meias, dois boxers, duas calças de ganga, duas camisolas, dois pijamas, a sua carteira, o seu caderno, um lápis e uma afia. Com a mala preparada, deixou uma nota em cima da mesa da cozinha para a mãe poder ler:

Vou fugir de casa, tenho 16 anos e não consigo viver mais neste inferno. Vou partir para longe e não me procures. Levo o essencial comigo, o meu material de escrita, o meu mundo às costas.

Vou procurar nesta semana a verdadeira essência do Natal e irei escrever sobre ela, um conto. Contudo, volto no dia a seguir ao Natal. Espero que tenhas coragem de fazer o mesmo que eu, foge também mãe, não quero ver-te sofrer, não te quero ver chorar mais.

Foge e volta no mesmo dia que eu. Iremos juntos à polícia e falaremos sobre tudo o que se passou e que se poderá voltar a passar.

Amo-te Mãe e espero que me compreendas, eu volto. “

O rapaz saiu de casa sem a mãe notar. Contornou todas as esquinas, percorreu todos os caminhos e assim continuou, até estar muito longe de casa. No seu caminho procurou um abrigo, onde fosse capaz de fazer uma pequena fogueira para se aquecer. Foi então que encontrou uma ponte que tinha um túnel, onde supostamente já tinha passado um rio há muitos anos, antes de ter secado. Pelo menos, foi o que ele tinha lido sobre a história da sua cidade.

Ele desceu as escadas que a ponte tinha até ao túnel e à medida que descia, podia-se ouvir a voz de um rapaz a cantar e de uma guitarra a ser tocada de forma majestosa e clara. Ao mesmo tempo ouvia-se um rapaz a rabiscar um papel, como se fizesse desenhos. Os sons aumentavam. Foi então que desceu completamente as escadas e viu dois vultos ao meio do túnel, à volta de uma fogueira.

Aproximou-se devagar e devagar, porque não sabia como aqueles estranhos poderiam reagir à sua presença. Chegou à beira de ambos e a balbuciar soltou um “Olá”. Aquelas duas personagens viraram-se e olharam para ele de cima a baixo, e responderam da mesma forma ao rapaz.

Depois de ver que aqueles dois rapazes tinham mais ou menos a sua idade, acabou por se apresentar. Disse que se chamava António, tinha dezasseis anos e que tinha fugido de casa. O que cantava e tocava chamava-se Miguel e o outro que parecia ter uns dezoito anos, e desenhava coisas que nunca se tinha imaginado, chamava-se Jorge.

O António perguntou-lhes o que faziam ali e eles disseram que tinham fugido também de casa. O Jorge fugiu porque os pais não o deixavam seguir Artes e o Miguel, porque os pais achavam que ele não teria nenhum futuro na música. António explicou-lhes os porquês de ter fugido de casa.

Então estavam juntos três artistas, um escritor, um músico e um desenhador. Começaram por mostrar os trabalhos uns aos outros, começaram por se conhecerem melhor. Assim foi até dia vinte e cinco, até ao dia do Natal. António sabia que dia vinte e seis, iria voltar a casa e aconselhou os seus melhores amigos a fazerem o mesmo, a lutarem contra os problemas, pelo que gostam e por tudo aquilo que é capaz de lhes fazer feliz.

No dia a seguir, António caminhava em direcção a casa e separava-se dos amigos que tinha feito naquela semana. Quando chegou às portas de casa, viu o seu pai a ser algemado. António olhou para a sua mãe e viu que ela já não chorava, mas sim, sorria como se fosse o romper do Sol no Inverno entre as nuvens mais negras ou do nevoeiro mais denso.

Podia-se dizer que o Inferno tinha acabado. Anos mais tarde, podia-se ver três homens com as suas mulheres, com uma casa, com filhos e a fazer o que mais gostavam de fazer. Tudo isto, porque tiveram coragem para acabar com as injustiças que a vida lhes tinha imposto, mais a um do que a outro.

Actualmente, António acabaria de escrever o seu novo conto:

“O rapaz do Conto de Natal”

Através do qual, ele conseguiria dinheiro mais que suficiente para criar uma instituição contra a pobreza, toxicodependência, alcoolismo, violência doméstica, entre outros problemas da vida.

sábado, 13 de novembro de 2010

O rapaz da Madrugada

Ele acordava todas madrugadas, à 1 da manhã. Era um rapaz pacato, inteligente, não muito bonito, nem muito feio. Era um rapaz normal em plena adolescência. Contudo, sentia-se especial, tanto pela sua maneira de pensar e, de ver certos pormenores da vida. Ele achava estranho, não conseguir encontrar aquilo que pretendia.
Como tal, saía sempre a essa hora de casa. Sem os seus pais notarem. Ele não ia para nenhuma discoteca, para nenhuma festa, e muito menos para algum encontro. Ia sim, vaguear de forma perdida pelo mundo a seu redor. Levava consigo o seu pequeno caderno, e sempre que encontrava um sítio interessante, pegava nesse mesmo caderno, e escrevia.
Não escrevia qualquer coisa, escrevia algo que marcasse aquele momento, e puxasse aquele sentimento a quem fosse ler. Depois de escrever, arrancava a folha do caderno, e punha essa folha debaixo de uma pedra, para esta não voar. E lá ia ele mais uma vez, caminhar pela noite fora. E dali a uma hora, ele ia-se embora.
A noite tinha efeitos mágicos sobre ele, tornava-o calmo e ao mesmo tempo forte, com confiança nas suas capacidades, conseguia fugir aos problemas. Apesar de ter noção, que mais tarde ou mais cedo, terá que enfrentar todos esses problemas, e superá-los. Mesmo sabendo, que teria quebras de consciência, racionalidade, e que poderia não voltar a ser o mesmo. Ele ia tentar.
Encontrou outro lugar, este era na margem de um rio. Onde não se ouvia o mais pequeno barulho, a não ser o das pequenas ondas que batiam ao de leve no paredão. Antes de se ir embora, decidiu escrever um pequeno texto de amor:
Olho para estas ondas a baterem devagar, e nelas vejo o teu rosto disforme. Trouxe-me lembranças da nossa vida passada, eu sinto-me indiferente em relação a ti. Mas sempre a pensar no que passei contigo, e no que eu senti. Agora nestas noites, procuro estar sozinho, procuro escrever e dar vida às palavras que se emergem do meu coração, que bate devagar… muito devagar.
Mais lento que estas ondas, mas sem cessar. Porque quando me levanto de dia, e vejo aquele sol, que não já não me aquece e nem me arrefece, sei realmente o que procuro. Procuro o amor que já tive em dias, procuro alguém capaz de passar a minha barreira, e apertar-me o coração para que este volte a bater a todo o vapor. É verdade que é difícil de encontrar alguém assim, porque hoje em dia, maior parte das pessoas ama-se por interesses sem cabimento. Isto já não é o que era.
Mas não desisto… porque amar-te-ei uma vez, amar-te-ei uma segunda vez, mas não te irei amar da mesma forma outra vez, e nunca perdoarei à terceira vez. É o amor que um verdadeiro romancista, uma pessoa que sabe a veracidade e o poder que este sentimento é capaz de provocar, e de mudar tudo…
Mais uma vez rasgou essa folha do seu caderno. O rio estava parado, já não se via aquelas ondas. E quando deu por si, estava a contemplar um dos mais bonitos rostos, que alguma vez tinha visto na sua vida. Levantou-se e virou-se devagar, e da mesma forma, fixou o seu olhar no da rapariga. Com quem comunicava algum tempo através das folhas que por ali deixava.
Muitos na altura pensaram que era um encontro, mas não, não era. Foi no procurar de uma noite, de uma vida sem destino, que duas pessoas se conheceram melhor, e se apaixonaram. Capazes de se amar, e de serem felizes. Nem que fosse uma vez só, dentro de mil e uma vezes.
Anos mais tardes, e sempre à mesma hora. Já não se via o rapaz da madrugada, mas sim, um casal apaixonado a escrever os seus textos, para o livro das suas vidas, e das nossas vidas.