- Olá Papel.
- Olá, que tens tu?
- Oh, eu não tenho nada.
- Não tens nada? Como podes dizer isso? Estás com uma cara de quem teve a chorar e estás a sangrar do nariz, não me enganas meu rapaz.
-Oh Papel, estou nervoso é por isso que estou a sangrar, os meus pais…
-Os teus pais? Que se passa, conta-me!
-Vais-me deixar tatuar o teu corpo, outra vez? Vais querer aliviar o meu fardo, antes de eu cometer alguma loucura? Não sei como tu não és capaz de te cansar de mim.
-Sabes uma coisa? Eu até sentia falta da tua caneta sobre as minhas linhas, eu já carrego o teu mundo no meu corpo e não me viste a rasgar ainda, pois não?
-Não, obrigado Papel. Deixa-me só pegar na minha caneta que já tem pouca tinta, vou tentar escrever tudo e mesmo que não o faça, voltarei cá ter contigo.
-Não precisas de agradecer-me, eu estarei cá sempre para ti.
-Vou começar. Prometo que não vai doer muito.
-…
“Estava sentado à frente do meu computador, como é habitual. Já tinha acabado de jantar. Esperei que a minha mãe se levantasse e fosse à rua ou à casa de banho, para eu poder despejar a garrafa do vinho. Esperei e esperei, até que tive oportunidade para tal. O problema é que eu não encontrava a garrafa em lado nenhum, porque ela já estava vazia.
Voltei para o quarto, antes que a minha mãe fosse sair da casa de banho e me apanhasse a coscuvilhar. Ela voltou para a cozinha e o meu pai foi para lá. Foi ai que começou a discussão, as boquinhas tristes de um ao outro. Bem, isso não foi o pior. Porque o pior vinha a seguir.
A minha mãe começou a empurrar o meu pai para fora de casa, porque ele ia para o café, onde anda sempre metido durante horas e horas. Não faz nada em casa, apesar de ficar a maior parte do dia a trabalhar. Ele não saiu, ficou cá dentro. Foi mais ou menos ai, que a minha mãe pregou uma chapada ou um soco no meu pai. Ele estava agarrado ao rosto.
Eu intervim. Pus-me entre os dois e perguntei à minha mãe se era com violência que ela resolvia as coisas, ao qual ela respondeu-me que sim. Então eu numa manobra desesperada, fui para o meu quarto, peguei no meu telemóvel e liguei para a polícia. A minha mãe veio atrás de mim e quase que me arrancou o telemóvel da mão. A minha irmã pôs atrás de mim nesse momento.
Eu já não estava em mim e ainda bem que não, senão não tinha coragem de dizer que, eles os dois já não eram pais para mim, que eu já não sentia isso. Que tinha vergonha de trazer os meus amigos cá para casa, por causa das vergonhas que eles me causam ou podem causar. Não só a mim, mas também à minha irmã. Chamei à minha mãe de bêbeda e ao meu pai de miserável.
Dei-lhes opção de escolha entre os problemas deles ou eu e a minha irmã. Tranquei a porta do quarto e vesti-me rapidamente, já não podia estar debaixo de uma chuva de meteoros que me incendiavam o quarto. Pior dos infernos, sai de casa e disse-lhes a mesma coisa, que para mim eles já não eram os meus pais. Descia as escadas do prédio o mais rápido possível e fui pela rua abaixo até à baia do Seixal. “
-Papel a minha caneta está a deixar de escrever, que faço agora?
-Salta o que tiveres de saltar, mas não pares de deitar cá para fora o que tens de deitar.
-Está bem Papel.
“Dei a minha volta pela Torre enquanto me ligavam de casa e a minha mãe me mandava mensagens a dizer que se não voltasse para casa, que iria acontecer um disparate. Como é que era possível ter a lata de fazerem coisas tristes, vergonhosas, infantis e ainda me ameaçar? As pessoas sabem descer muito baixo, mesmo elas sendo o nosso pai ou a nossa mãe.
Às vezes preferia passar fome como muitos passam nos Países em vias de Desenvolvimento, porque os Pais não dão mais aos seus filhos, porque não podem. Mas ao menos dão-lhes o que eles mais precisam afecto, força para lutar e um lugar de abrigo. O ser humano é capaz de viver sem comer, sem beber, mas é incapaz de viver sem amar ou ser amado por alguém.”
-Papel, já acabei.
-…
-Porque choras?
-Se não te tivesse a ti, ninguém me usaria. Ninguém me daria a importância que tu dás e mesmo assim eu fujo de ti, porquê?
-Não faz mal Papel, já podia ter escrito um livro, é certo, e já ter algum dinheiro, mas o dinheiro não me trás felicidade. Só mete comer na mesa e, acredita em mim, eu às vezes também fujo de mim e de toda gente.
-Não o devias fazer.
-Eu fujo para ser livre, para ser um pouco feliz e para estar contigo. O que era de mim sem ti? Nada e certamente, eu já não estaria cá há muito tempo. Papel, és o meu eterno companheiro.
-E tu o meu, Caneta.
mano da minha vida. Faz de mim um dos teus papeis, porque sabes que vou estar sempre para ti. AMO-TE MEU MANINHO <3
ResponderEliminarNem sei bem o que dizer!
ResponderEliminarEstá simplesmente FANTÁSTICO este teu 'post'!
Os meus parabéns por escreveres assim.
Boa noite, Leonor.
(:
E eu que pensei que era a única a falar com o papel (literalmente).
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