- Olha, preciso de falar contigo com alguma urgência. Porque da outra vez andámos à pancada e não chegámos a um consenso. Por isso, meu velho amigo, penso que é melhor sentarmo-nos a jogar com calma, talvez uma partida de xadrez. Concordas?
- Talvez, porque da outra vez não correu nada bem a conversa, aliás nem sequer deu para conversar. A raiva que sentia por ti, era enorme.
Puxámos duas cadeiras e uma mesa, montou-se o tabuleiro e as peças. Um verdadeiro campo de batalha, entre a razão, a lógica e os sentimentos. O ambiente encontrava-se silencioso, até que:
- Afinal, sobre o que desejas falar?
- Sobre o que te deixa frustrado.
- Sinceramente, só podes ser estúpido e egoísta para não o saber.
- Um pouco e até prefiro assim!
- Um pouco e até preferes assim? Tu não me irrites, preferes deixar-me sofrer para toda a eternidade, sabes-me o quanto custa gostar de algo e esse algo não bater o mesmo por mim? És egoísta, és estúpido e és burro!
- Deixa ser! Sinceramente, não preciso de ti para nada. Prefiro viver nesta burrice, neste egoísmo, do que voltar a gostar de alguém, do que amar alguém e acabar a sofrer, aliás isto já é contigo.
- Sabes bem que o que estás a dizer, não têm pés nem cabeça, não sabes? Julgava-te inteligente, mas penso que sejas como os outros todos.
- Ao menos, não traio. Não sou traído, e passei a guardar para mim o que faço ou o que deixo de fazer. Porque é com os erros que se aprende!
- Nesse ponto podes estar correcto, mas pára de me pôr de parte, eu também quero viver! Eu também quero amar! Não sirvo só para sofrer, chorar e rir de vez em quando com os teus amigos! Supostamente, eu e tu somos um só. Mas está mais que visto, que é impossível.
- Sentimentos… sentimentos… porque haveria de existir sentimentos?
- Não me venhas com filosofias. És um cobarde e sempre o serás. As tuas desculpas serão sempre as mesmas: «Porque não quero sofrer. Porque isto e porque assado.». Ao menos já pensaste em tentar? Era melhor se trabalhássemos para algo maior do que nós. Olha para o tabuleiro!
- Sim, o que tem?
- Pior cego é aquele que não quer ver.
- Afinal, não sou o único com filosofias.
- Cego, burro, casmurro. É um ditado, a única filosofia é a do jogo, e essa estás eventualmente a perder!
- …
- Espero bem que um dia, não seja tarde, para compreenderes que, não podes viver só de sonhos e objectivos a vida toda. Também precisas de mim. Lembras-te quando andámos à pancada? Eras mais rápido, mais forte, mais inteligente. Só que te escapou algo, eu sou mais apto e é por isso que te encontras actualmente a perder o jogo.
- Que pretendes dizer com isso? Se te espancasse agora, voltarias a ficar negro!
- Lamento, mas isso não aconteceria. Eu adapto-me ao momento a uma velocidade infinita, cada batimento meu é uma jogada num campo de xadrez, se perder um peão, não faz mal. No fim, acabo por ganhar o jogo. Tal como, quando sofro, haverá uma altura que já não o farei. Sem mim, és igual a todos os outros. Mas comigo, és capaz de te elevar acima dos teus próprios sonhos!
- Como podes ter tanta certeza?
- Não tenho, mas deixo isso para ti e para veres com os teus olhos no futuro. Eu só tenho fé neste meu «sentir».
- Mas sabes que não vou ceder com facilidade.
- Não te preocupes, a tal, certamente te atingirá com uma seta capaz de trespassar o teu peito de aço.
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Nem sempre devemos bloquear os nossos sentimentos e separarmo-nos do nosso «coração», porque nem sempre vamos amar, nem sempre vamos ser felizes, mas também nem sempre vamos odiar, nem chorar. Seja porque motivo for, parem o tempo e reflictam sobre o que se passava à vossa volta.
«O ser humano não é à prova dos seus sentimentos, mas é um pequeno mágico que se quer iludir a si próprio.»