Deambulo de cachecol ao pescoço, de casaco de cabedal a proteger-me o tronco e o guarda-chuva na mão para precaver-me dos azares de Novembro. Oh! Sim, é Novembro e esta é uma das suas madrugadas de sábado por onde vadio de encontro ao vento gélido, que se roça no meu rosto com todo o seu sentimento.
O vazio quase total da noite fascina os meus gomos castanhos. Por agora caminho sobre o tosco passeio mas mais tarde explicar-vos-ei isto através do corte da minha voz. Paro por uns breves instantes para mirar o reflexo do meu rosto na água deste desgastado rio. Os meus olhos adormeceram por uns momentos, curtos mas sólidos momentos. A minha face deformou-se com o toque de uma pedra.
Balancei o meu olhar para os lados e nada vi. Fechei os olhos e ao reabri-los reparei num pequeno rapaz do meu lado a atirar pedras para a água, ele queria atira-las o mais longe possível, fazê-las chapinhar o mais tempo possível, ele queria correr o mais depressa sobre a sua imaginação para fugir à tragédia da sua “vida”, ele queria criar algo que sobrepusesse ao mal.
Este rapaz era eu. Com o passar dos tempos o meu corpo envelheceu, deu-me esta forma velha, fraca e feia, e a sociedade deu-me novos ares, mais poluídos para me sufocarem os pulmões, o cérebro, foi então que tive de tomar uma atitude em que tinha tudo a perder por uns tempos, cortei a escola e a voz a esse rapaz por dois anos, tornei-a muda e ensinei-o a escrever, a retirar todo o pedaço de merda que me assolasse o coração, todo o pensamento que não conseguia transmitir verbalmente por causa do meu grave sentido de timidez e deixei-o fazer através do rabiscar das linhas, e a amassar toda a carência e instinto que a Humanidade me deu.
Esta é a explicação, este é o corte da minha voz para um grito feroz de sentimento, um grito onde todos querem gritar de igual modo, eu quero gritar mais alto, gritar, gritar até rebentar as artérias. Esta é a explicação sobre o que retiro da escrita, retiro do coração, do que está diante dos meus olhos, no que desliza para o interior dos meus ouvidos, o que me fica na memória do passado, é tudo isto que retiro, porque sem tudo isto não era o que sou hoje.
Porque tudo isto levou à estrada mirabolante que é escrever.
Obrigado.