quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ano Novo

Vou-vos contar algo que, felizmente, ainda não aconteceu, mas conto já com lágrimas congeladas no rosto o que se sucedeu. Esta história verídica, retrata a pessoa que era e na razão porque me tornei no que se hoje, se leres esta mensagem algures no jornal local, na faixa da literatura, irás perceber que não morri, isto se ainda te lembrares de quem sou.
Eram um casal com cerca de vinte anos de idade, ele um ano mais velho que ela. Conheceram-se num momento de infância, talvez na praia, ouvindo as gaivotas e vendo as ondas a caminharem na areia seca. Não sei ao certo, só sei que tinham uma atracção pela Natureza, pelo bem-estar que lhes causava e pela apatia que esta lhes retirava.
Ele desde de pequeno demonstrava uma visão ampla sobre a escrita, uma imaginação fenomenal para a idade que tinha, mas nunca se convenceu de que era um romântico nato. Porque na verdade, ele só vivera o amor uma vez e actualmente era esse que sentia.
Ela desde de muito nova se tinha tornado numa artista perspicaz, retratava não só o real, mas como a sua imaginação, como de certa forma o que via tivesse outra           mensagem. Costumava dizer: “Cada rosto era uma nova paisagem”. Contudo, ela negava ser amante de um só momento, era sim apaixonada por um conjunto deles.
Talvez fosse por isso, que eles eram felizes e compreendidos. Viviam a emoção até ao fim, até mesmo quando chegou o fim.
Tudo começou com uma atribulada organização para a passagem de ano, andavam demasiados cansados e como sempre queriam que tudo estivesse certo, para passarem uma boa noite de ano novo, como fizeram anteriormente, fosse num hotel à beira-rio onde pudessem jantar à luz das velas na varanda do seu quarto, ouvindo os peixes a saltar na água e respirando o ar puro ou numa casa alugada num monte onde pudessem sair pelos caminhos de terra batida até encontrarem uma árvore em que se sentassem agarrados e desfrutassem de um momento único e só deles.
Contudo, encontravam-se atrasados, muito atrasados e a pressão sendo questão, para ele era fácil de suportar, para ela era mais complicado. Então, ela cedeu e pediu-lhe que este ano fosse diferente. Ela pediu um tempo para estar só consigo mesmo e se divertir com as suas amigas. Pois, na altura ele assentiu de coração partido, com um sorriso estampado no rosto mas com compreensão. Nada lhe respondeu e voltou para casa. Ela não lhe fez questão de o chatear, porque sabia que ia estar triste e que iria querer estar sozinho com os seus pensamentos como sempre o fazia. Só que não era isso que ele queria nessa altura.
Deram-se as doze badaladas da meia-noite, no sábado do dia 31 de Dezembro, ele encontrava-se sentado no carro de porta aberta sobre o cabo, a enxergar o mar com lágrimas congeladas no rosto do frio que se fazia naquele negrume. Tinha bebido bastante, talvez, umas três garrafas de vodka pura e uma de licor beirão, até o álcool tinha de ser puro como a natureza, tudo menos as tristes palavras que se encontravam presas na sua garganta e que não as conseguia pronunciar. Talvez, não valesse a pena.
Sentiu o telemóvel a vibrar no bolso e o nome dela aparecia no ecrã: Cláudia. Era o nome da sua namorada ou ex, ele estava confuso e não sabia o que haveria de fazer, atender ou não atender o telemóvel. Deixou vibrar mais um pouco até se desligar. Uns segundos depois ela voltou-lhe a ligar e ele atendeu.
- Olá, que andas a fazer? – Perguntou ela.
- Eu? Estou a ver o mar a bater na rocha, nesta solidão intransigente. Já não a sentia desde que os meus pais morreram. – Respondeu ele.
- Não estás com os teus amigos?
- Que amigos? Aqueles de que abdiquei para poder estar contigo e por causa disso me deixaram? Eles bem me avisaram que este dia podia chegar. – Desligou a chamada e desligou o telemóvel.
- Eu não… Estou? Ricardo? – A chamada tinha caído. Ela ligou-lhe mais umas cem vezes e dizia que o telemóvel encontrava-se desligado.
No dia seguinte ao fim da tarde o carro foi encontrado numa ravina, não se encontrava ninguém dentro do mesmo e nem ao seu redor, a não ser as garrafas partidas no chão, o telemóvel e uma carta sobre o banco.
Procuraram pelo seu corpo no mar e só encontraram a sua roupa. Declararam-no como morto. Ela tinha sido a última pessoa a vê-lo. Só não sabiam que ele estava vivo, muito vivo e ciente do que tinha feito. Na altura a razão sobrepôs-se a qualquer afecto, pois era isso que acontecia quando ele bebia, por isso ele bebia pouco porque necessitava do sentimento para amar, mesmo tendo uma razão louca e apaixonante, precisava de sofrer com o mesmo.
Passaram-se cinco anos desde dai e dentro desse espaço de tempo, ele aprendeu tanta coisa fora do seu mundo de palavras, aprendeu programação avançada e desta forma conseguiu “hackear” os sistemas informáticos do governo e criar, por sua vez, um novo nome, uma nova identidade e mudar de universidade. Tornou-se num médico de renome num curto espaço de tempo. Envelheceu com o tempo e o treino diário aliado aos poderosos suplementos alterou-lhe as formas do corpo, tinha um físico bem melhor do que aparentava há alguns anos, mais definição, maior massa e simetria muscular. O rosto parecia rejuvenescido e a nova barba, cuidada, dava-lhe um outro charme.
Porém, durante esses anos recusou-se a ter outra pessoa, houve muitas pretendentes mas ele queria a outra e só a outra, porque não havia nenhuma outra como a outra, a outra que sempre esteve com ele desde miúdo. A Cláudia.
Voltou ao fim de cinco anos à cidade natal, e esta encontrava-se tal e qual como aquando da sua partida. Não vazia, não remota, cheia de turistas e com os mesmos habitantes. Passou de carro na avenida principal e abriu o vidro e pediu uma indicação a uma menina que acabara de sair de uma loja:
- Boa tarde. - Fitaram-se por uns breves momentos.
- Desculpe, conheço-o? – Perguntou ela.

- Penso que não mas podemo-nos conhecer noutro dia. Eu queria-lhe perguntar se existe alguma casa à venda aqui nesta pacata vila? – Conhecemo-nos mais do que imaginas, pensou ele.
- Acho que o meu namorado não ia achar muita piada a isso, mas respondendo à sua pergunta, sim e só por acaso a casa do meu ex-namorado, que fica à frente da minha. – Respondeu com uma voz trémula. Ele pediu-lhe a morada e ela assentiu ao pedido. Num abrir e fechar de olhos ele voltava a pisar o chão que sempre foi dele.
Agora, quando leres, e isto se o leres, este trecho de texto na secção de literatura no jornal do Seixal, relembra-te de que eu voltei por ti e sem querer estragar o amor e a felicidade que sentes actualmente, saberás com certeza onde me encontrar.
Do teu lado, como sempre. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Hoje

Hoje, é certamente um dia muito especial para a minha pessoa. Tenho certeza absoluta que não me encontro apaixonado ou que padeço de tal sintoma, ou que tenha a consciência de que fiz algo de novo que desse esperança ao Mundo, pelo menos hoje.
Hoje, por fim, notei um despertar que aguardava há muitos anos, desde daquele dia, daquela notícia, desde que tropecei então e cai inconsciente numa cama e fiquei por lá de olhos cerrados, a viver memórias do passado, saudades do futuro e da indecisão do presente.
Hoje, que isto interessa? Tudo. Porque este filme foi o estímulo que, de certa forma, retrata tudo aquilo que sonhei em viver, em sentir, a partir do momento em que soltei o primeiro choro neste Mundo até ao dia que voltarei a fechar os olhos de vez.
Hoje, de consciência livre, de olhos limpos de poeira, vejo que o meu sonho não é ser escritor ou bodybuilder, porque só queria ter força e apatia para ser melhor do que sou todos dias, mas isto, isto das palavras estampa-se na minha cara, no meu feitio, no meu pensamento incerto.
Hoje, quero que a vida seja os meus anabolizantes de imaginação, que potenciem um crescimento longo e duradouro de asneiras, erros, paixões, lágrimas, aprendizagens, emoções, esgotamento, etc. Quero que a minha secretária se transforme num banco que consiga suportar todo o peso da minha consciência e inconsciência que se tornarão mais pesadas a cada ano que passa. Quero que lápis seja o meu haltere e que faça o deslizar com a força de um mundo sobre o caderno.
Hoje, não quero escrever, quero sim fazer parte escrita e quero viver essa história, seja ela qual for, quero vivê-la, quero amar até amar a tal, quero chorar até chorar com a tal, quero sofrer por perder quem mais amo, quero ser quem sou e se puder sê-lo, então também quero morrer feliz.
Hoje, sinto-me feliz e amanhã começa uma história nova e eu certamente vou aproveitá-la ao máximo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tudo isto

Deambulo de cachecol ao pescoço, de casaco de cabedal a proteger-me o tronco e o guarda-chuva na mão para precaver-me dos azares de Novembro. Oh! Sim, é Novembro e esta é uma das suas madrugadas de sábado por onde vadio de encontro ao vento gélido, que se roça no meu rosto com todo o seu sentimento.
O vazio quase total da noite fascina os meus gomos castanhos. Por agora caminho sobre o tosco passeio mas mais tarde explicar-vos-ei isto através do corte da minha voz. Paro por uns breves instantes para mirar o reflexo do meu rosto na água deste desgastado rio. Os meus olhos adormeceram por uns momentos, curtos mas sólidos momentos. A minha face deformou-se com o toque de uma pedra.
Balancei o meu olhar para os lados e nada vi. Fechei os olhos e ao reabri-los reparei num pequeno rapaz do meu lado a atirar pedras para a água, ele queria atira-las o mais longe possível, fazê-las chapinhar o mais tempo possível, ele queria correr o mais depressa sobre a sua imaginação para fugir à tragédia da sua “vida”, ele queria criar algo que sobrepusesse ao mal.
Este rapaz era eu. Com o passar dos tempos o meu corpo envelheceu, deu-me esta forma velha, fraca e feia, e a sociedade deu-me novos ares, mais poluídos para me sufocarem os pulmões, o cérebro, foi então que tive de tomar uma atitude em que tinha tudo a perder por uns tempos, cortei a escola e a voz a esse rapaz por dois anos, tornei-a muda e ensinei-o a escrever, a retirar todo o pedaço de merda que me assolasse o coração, todo o pensamento que não conseguia transmitir verbalmente por causa do meu grave sentido de timidez e deixei-o fazer através do rabiscar das linhas, e a amassar toda a carência e instinto que a Humanidade me deu.
Esta é a explicação, este é o corte da minha voz para um grito feroz de sentimento, um grito onde todos querem gritar de igual modo, eu quero gritar mais alto, gritar, gritar até rebentar as artérias. Esta é a explicação sobre o que retiro da escrita, retiro do coração, do que está diante dos meus olhos, no que desliza para o interior dos meus ouvidos, o que me fica na memória do passado, é tudo isto que retiro, porque sem tudo isto não era o que sou hoje.
Porque tudo isto levou à estrada mirabolante que é escrever.
Obrigado.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ementa

Se me perguntarem o que retiro da escrita, acho que só poderei responder uma nova aprendizagem, um novo olhar sobre o erro cometido ou sentimento mal usado. Apesar de ter a noção de que escrever é mais um despejar da nossa consciência e até mesmo da inconsciência numa panela, uma conjugação de sentimentos, instintos humanos, realismo e criatividade.
Então elaborei a seguinte ementa da minha pessoa e comparo-a ao cozido à portuguesa:
O português é o tempero, a água e a temperatura ideal para cozinhar. A carne de porco, vaca, as farinheiras, o chouriço preto, chouriço de sangue são o falso sabor delicioso, sabem bem no paladar e matam a fome mas fazem-nos mal à saúde e daí os horríveis instintos, a má fortuna nas afecções e a carência do Homem. Os vícios, a vida carnal.
Já as batatas cozidas, as cenouras alaranjadas, a magnífica couve são o verdadeiro sentimento, o sentido de criatividade, um lugar espiritual e um abrigo saudável da nossa pessoa, contudo também são aquilo que mais negamos. As virtudes, a realidade intelectual, abstracta e espiritual escondida na nossa inconsciência.
Por fim, escrever é mais que uma virtude e quiçá seja um defeito de quem compõe, e talvez seja esta a razão de existirem diferentes pratos a serem provados em restaurantes, e outros reservam-se a receitas caseiras. De tudo um pouco, é assim a minha ementa de escrever.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Correspondência

                Ao longo da minha jornada houve cartas que não me foram correspondidas, seja à minha pessoa, seja à carga que as rabiscou de tinta. Mas existe um momento em particular, no qual as minhas cartas eram respondidas e é este período que eu tenho a delicadeza de o recordar. Chamo a este instante de amor anónimo sem o ser ou de um simples amor não correspondido.
                Tudo começou no Secundário quando entrei para uma turma pacata de letras. Passando à frente. No dia em que recebi o meu primeiro teste de Português, a professora pediu para falar comigo e com uma colega minha. Pelos vistos, tínhamos sido as melhores notas da turma e ainda por cima tivemos a mesma nota. Não havia vírgulas entre os dois números ou casas decimais que os prolongassem, era a mais bela nota, do mais requintado valor, era um vinte.
                Foi nos pedido para que compuséssemos uma pequena peça de teatro, nada mais. As nossas ideias vinham das cartas que nós redigíamos um ao outro (Meu deus, éramos tão antiquados) durante os intervalos, não falávamos muito com os nossos lábios, se não ser um olá ou um tudo bem, um txau ou até já, etc. As primeiras e verdadeiras palavras surgiram posteriormente à nossa peça, já na rua ela disse que gostava de mim e retribui-lhe com termos diferentes.
                Agora os nossos lábios já falavam e tínhamos tornado bons amigos, melhores amigos. Porém, algo mudou. Não os sentimentos mas o simples facto de ela namorar e ter perdido a vontade de escrever. Pelo simples facto de ela estar apaixonada pelo meu melhor amigo.
                Relembro o nosso diálogo à saída da peça, na rua:
                - Gosto de ti. – Disse ela.
                - Posso-te dizer algo com toda a sinceridade?
                - Sim, podes.
                - Eu estou apaixonado por ti, não sais da minha cabeça, imagino, não, juro-te que estás a viver no meu coração desde do momento em que nos conhecemos.
                -Lamento, não queria que isto acontecesse, nem eu imaginava que isso pudesse acontecer, mas eu só te vejo como amigo, nada mais.
                A minha alma apaga-se, a noite torna-se mais escura, as lágrimas congelam-se nos vidros oculares, mesmo assim:
                - Posso-te acompanhar a casa e irmos conversando?
                - Sim.
                Encontrava-me no Décimo Segundo ano e nós pouco tínhamos para falar, continuávamos melhores amigos e um dia ela veio me falar pelo msn, algo que nunca tínhamos feito na vida, ela disse-me que estava imensamente apaixonada por um rapaz, lá fez a descrição e pimba, tinha que acertar logo no meu melhor amigo. Mal lhe contei quem era, ela pediu-me desculpa, que não sabia.
                Tudo mudou a partir daí, o meu melhor amigo descobriu um dia as tais cartas e queimou-as, ela com medo parou de escrever, parou de estudar após os exames do décimo segundo, aos quais, ela não teve sucesso.
Eu por sua vez lá consegui, com um grande esforço para esquecer tudo e pôr a informação necessária cá dentro. A dor assolava-me mais que o ego da incompetente amizade dele e da forma como ele via as raparigas, como uma aposta para o futuro.
Anos depois, encontrei essa mesma miúda numa biblioteca municipal, a ler. Foi então que conversámos e durante esse diálogo ela revelou-me que eles tinham acabado, era mais ela, na qual a causa tinha sido a minha pessoa e que ao longo de todos aqueles anos era por mim que estava apaixonada.
Agora estamos juntos e vivemos a vida a compor como esta deve ser vivida: Correspondida.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Bela arte

“O amor é uma arte, uma bela arte. Mas hoje, infelizmente, nem todos são artistas.”
Hoje, agora, neste momento, vou dar a este texto um pouco do amor da minha vida, um pouco de lágrimas do meu sofrimento por ela, um pouco dos nossos beijos, olhares, sorrisos, abraços, brincadeiras. Vou dar isto ao Mundo e fazer disto, a minha arte.
Traço com a ponta do meu lápis, uma linha sobre as curvas do teu corpo. Começo pelos teus pés que se encontraram sempre em sintonia com os meus, quando andávamos pela rua de mão dada, sem norte, sem sul. Só nós. Esboço um brilho no teu olhar castanho, lembro de me ver no seu reflexo a sorrir como nunca. A correr atrás do autocarro para te poder ver por mais uns momentos.
Desenho e pinto os teus lábios de vermelho claro, porque tu nunca foste de pintar-te, sinto-os a tocarem ao primeiro beijo estão secos, ao segundo encontram-se molhados, ao terceiro e a partir desse beijo, não existe mais ninguém que eu deseje. Ilustro os nossos abraços com cores amareladas, alaranjadas e avermelhadas. És tudo para mim.
 Amei-te, desenhei o meu coração num papel e entreguei-o como nunca fizera a ninguém, escrevi só para a tua pessoa, fui-te fiel e fui o Homem que deu-te a maior prova de amor. Fui tudo: Desde louco, apaixonado, amigo, namorado até ao artista da tua obra-prima. O que eu mais desejava era que me compreendesses, que crescesses um pouco, que lutasses mais por ti e menos por mim, porque eu dei-te o que tu não tinhas e isso eventualmente tornou-me no que sou agora:
Um artista sem coração, um artista que procura na escrita um novo amor, um amor diferente e um amor que lhe devolva o que lhe falta. Os Homens amam da mesma forma todas as mulheres.
Já os artistas amam cada mulher de uma forma única, com um único sentimento, com uma única lembrança e recordação. Como um único e simples pedaço da sua vida.
É por isso que me recordo do teu rosto e de tudo o resto, não preciso de fotografias ou dos meus textos para me avivarem a memória, tudo isto porque vivi cinco meses e meio contigo, a chorar, a sorrir. Por azar, chegou ao fim. Contudo, continuo a dizer que foi o melhor para nós.
Com amor, o teu ex-apaixonado: Filipe Graça.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"De pequenino se torce o pepino"

Escrevo desde pequeno por linhas direitas a cruel realidade da vida, imunda de problemas, depressões, medos e erros. Só há três para cá, lembrei-me de entortar as mesmas linhas, então transformei os problemas em desafios ferozes e perigosos para serem vencidos, as depressões em repuxos de felicidade, os medos numa avassaladora coragem, os erros numa nova aprendizagem.
                Tudo começou aos poucos, primeiro por letras que não me eram nada, a seguir chegaram as primeiras palavras, depois as belas frases e seguidamente os pequenos textos. Esta era a virtude de infância: escrever pouco e cheio de sentido. Uma maneira de poder organizar os múltiplos planos mentais sobre a minha existência, e ao mesmo tempo poder ausentar-me da realidade que se assentava diante dos meus olhos.
                Hoje, a meio ou a um terço do percurso da minha longevidade, perdi a hipótese de escrever com razão. Organizei de tal forma o puzzle desde pequeno, que só me faltava uma única peça, era aquela verdade da qual fugi e que agora encontrei numa longa caminhada.
                Então o puzzle completou-se, e revelou uma imagem vazia onde o seu único preenchimento era umas linhas azuis. Actualmente e em diversos momentos do meu dia-a-dia, pegava no lápis e não podia deixar de reparar que automaticamente as linhas se entortavam ou então mantinham-se direitas. Foi ai que reparei no que me tinha tornado.
                Um artista despercebido e desassossegado, a derramar tinta das suas veias e escrever sobre as linhas do seu destino, a paisagem diante dos seus olhos, a troca sentida dos beijos em outrem, o suave timbre ou o horrível ruído da sociedade que passava e ecoava nos seus ouvidos, o caminhar e a correria dos seus pés na terra, na relva, no alcatrão ou na pedra da calçada.
                Porém o mais importante encontrava-se nas suas pobres, sujas, mas jovens mãos: uma borracha, um lápis, uma caneta e um caderno. Toda a vida do Universo renascida no papel.
                “De pequenino se torce o pepino”, tanto na escrita como na vida, ainda estou a aprender a ser algo maior e com menos erros: Um escritor e professor vivaz.
                

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Português

Tinha o hábito de caminhar todos dias de manhã cedo, antes do sol se levantar. Não existia quase ninguém nos passeios, excepto no passeio das paragens ou no alcatrão maciço das estradas, dentro dos transportes privados ou públicos. Seres independentes a dirigirem-se para os seus postos de trabalho, mais um mês a serem roubados aqui e ali, sem darem por isso. Pensava eu.
Já eu tinha um emprego simples, um emprego como sempre sonhei ter, um emprego meu e só meu. Preenchia-me a alma, a razão, o prazer, era uma total satisfação poder trabalhar assim. Era a escrita, a maior razão para me fazer levantar tão cedo, por vezes não dormia só para poder escrever. O meu emprego era igual ao de outros todos, com uma pequena particularidade: as minhas palavras eram as palavras de todos, residindo nelas a esperança de um amor, de uma felicidade ou um corte com a realidade num dado momento da vida, imaginação, sonhos, salvações…
Escrever para a minha pessoa, era uma conquista pessoal, era sobreviver aos perigosos momentos que nunca poderia vir a viver durante a minha existência, corrigir os erros descolados do meu ser, tornar as palavras em moléculas de oxigénio para os meus pulmões e água para o meu sangue.
Então saia de casa de caderno na mão, o meu lápis, a minha borracha e a minha caneta no estojo que se encontrava no bolso direito do casaco. No interior deste, tinha um maço de tabaco. Um cigarrinho trazia de volta o pensamento perdido algures na almofada da noite passada, sabia bem dormir sempre que me encontrava exausto.
O fumo soltava-se dos meus lábios e pairava diante dos meus olhos, embelezando a paisagem e aquilo que eu não conseguia absorver desse ser. Parei e apaguei o cigarro com o meu sapato. Abri e comecei a virar cada página do meu caderno, e fui lendo por alto os pequenos romances, os textos motivadores, os desastres da minha vida … Foi assim que escrevi o romance: “Fora da minha vida.”
Podia resumir este romance em poucas palavras: Tratava-se do meu primeiro amor e isto coincidiu com a minha fase adulta, que de certa forma aliviou a minha vida, foi um amor pesado, vivido com mais lágrimas do que sorrisos, com mais desconfiança do que confiança.
Hoje, ia reflectir sobre a minha escrita, a minha língua, a minha sociedade. O passado, o presente e o futuro desta. A língua portuguesa, a mais bela, mais vasta e mais saborosa de todas. Sim, a língua tem sabor, um sabor de conhecimento cosmológico.
Os termos vindos do latim e do grego, fundiram-se natural e omnisciente, tornando a nossa língua, numa língua só compreendida pelos Deuses. Depois os Árabes, atacaram-nos pelo Sul, vindos do Norte de África, mas mais tarde repelidos pelas nossas forças, contudo por cá ficaram mais textos, mais palavras e enriquecendo a nossa Deusa.
Fomos abençoados após tantos anos de sacrifício, após querermos mais e o melhor para nós. Zarpámos, com o conhecimento que nos foi dado, à descoberta do Mundo. Esbarrámos nas terras que depois chamaríamos de Brasil. Fomos até ao interior de África, contornámos o Cabo da Boa Esperança após vencermos as bestas que assombravam esse mar. Prosseguimos vitoriosos até chegarmos à Índia, onde desfrutámos de especiarias inexistentes em qualquer outra parte do Universo. Sacrificámos tanto para sermos o melhor povo possível, um ser Humano diferente e maior que qualquer outro, mas com os mesmo direitos e deveres de todos. Isto vagueava na minha mente mas continuei a pensar sobre o assunto.
A nossa história continuou ao longo dos anos e aos poucos fomos sofrendo vários deslizes, fraquezas e isso deixou-nos mais débeis. Fomos dando as nossas riquezas de mão beijada. Abdicámos de tudo com tanta facilidade. De tal forma, que hoje somos o lugar onde todo o Mundo defeca.
Contudo, salvou-se a nossa língua através das mentes mais iluminadas, ao longo das eras da nossa crónica. Fomos alvos de avisos e a verdade está à vista de todos. Passámos de um povo trabalhador, sonhador, inteligente para um povo que trabalha quase por obrigação, para um povo que só se sabe queixar dos problemas ao invés de resolvê-los, para um povo que é constantemente manipulado por outros, para um povo que vive à custa dos outros.
Tornámo-nos sem dúvida num povo de burros, de preguiçosos, de mentes fracas, de desilusões, de corrupção, de invejas, de preconceitos, de roubos. Um povo de merda que até a sua própria língua já vende.
Esvaziei o meu pensamento sobre o assunto pousando os olhos sobre o céu. Tenho o melhor emprego do Mundo, o emprego que já esteve nas mãos de Camões, de Eça, de Cesário, de Pessoa, de Saramago. O emprego de mudar as consciências, de chamar a atenção sobre os nossos comportamentos humanos, os nossos instintos animais. O emprego da palavra e da única razão de usá-la para tornar a vida de outra pessoa, do mundo melhor. Disse para mim mesmo.
Sendo assim, descrevo-me como sendo um ser com diferentes personalidades, por mais que procure dentro de mim por uma só pessoa, não consigo encontrar. Sou um pouco de toda gente com a diferença que só eu é que posso aprender com os meus próprios erros e esses são colados por mim, no meu caderno, com a minha língua, com a minha palavra.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Sons

Sento-me ensonado, todos os dias de manhã nesta escadaria da escola, entre o rés-do-chão e o piso superior. Acordo cedo, muito cedo e só tenho vontade de fechar os olhos por poucos segundos, dormir o pouco que não dormi na noite ou noites anterior. É assim todos os dias.
 Puxo o capuz para cima da cabeça, cobrindo quase toda a totalidade do rosto, só deixo os meus olhos cansados à vista de todos. Encosto-me à parede e deixo o meu corpo apodrecer entre o barulho dos passos gigantescos, das vozes ensurdecedoras que se fazem sentir nos meus ouvidos.
Os pequenos sons que consigo distinguir através da multidão, agarravam-se aos poucos à carne da minha consciência. Sons de beijos trocados entre parceiros, sons enigmáticos dos professores de matemática, sons das asas de um ser que voava, lá no pátio, para longe deste local. Sons da paixão, da inteligência e o timbre da liberdade que se repetia nas minhas memórias.
Sons! Sons de um outro eu, sons de um passado distante.
Acordo sobre a nota de um «Olá», de um «Não devias de estar aqui que já entrámos» de uma rapariga atraente, simpática e inteligente, que sorria na direcção dos meus olhos. Sons que ecoavam em todo o meu ser. Sons de mudança.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

dis/sabores

Cheguei a casa frustrado com a vida, com os dissabores que fui tendo e aguentado até este hoje sobre os meus ombros. Entrei com a toda a fúria em casa, quase que partia a chave na fechadura da merda da porta. Quando entrei pelo quarto e o vi desarrumado, porque já não o arrumava há imenso tempo, contudo tinha decidido fazer o que nunca pensaria em fazer na minha vida.
Parti a mobília toda, peguei nos portáteis, no sistema de som, na televisão, na consola e mandei tudo para fora daquelas quatro paredes, tudo partido, estragado. Sem reparo. Olhei para o meu quarto deserto, só eu e estas paredes, este tecto e este chão. Sai à rua por uns breves momentos, dei voltas e voltas, parei e sentei-me inúmeras vezes pelas diferentes partes da minha pequena localidade, a contemplar as pessoas, a ouvir as suas conversas. Contemplava e ouvia «Tudo».
Até começarem a surgir palavras, depois pequenos versos, um poema, um texto e então apareceu a minha imagem abstracta numa parede. Esta ideia sem corda, sem ponta por onde se lhe pegue ata-se à volta da minha alma e faz-me desabar sobre o chão. Morto, pensei eu. Escutava mexericos ao meu redor quando os meus olhos se abriram era eu, a dar-me uma mão, um abraço, uma palavra motivadora mas ao mesmo tempo existia outro eu, a esmurrar-me, a troçar de mim, a deixar-me mal.
Foi ai que acordei, tinha perdido a noção do tempo e tinha adormecido num pequeno banco ao pé do pequeno rio. A noite já se estava a pôr, contudo eu tinha que me apressar a chegar a casa e fazer aquilo que tinha de ser feito.
Reentrei novamente em casa, a fúria tinha desaparecido, vi os móveis arruinados, não passavam mais do que uma madeira sem função. O som já não saia das colunas do sistema, os portáteis, a televisão e a consola tinham morrido. Repousavam para toda a eternidade. A casa estava abalada por um silêncio infinito.
Passei pelos estragos que tinha causado e rasgava um atento olhar sobre a porta do meu quarto, lembrei-me de ir buscar uma cadeira branca de plástico para me poder sentar, o escadote para poder subir mais alto, e os baldes de tinta mais os pincéis para a tarefa que ia concretizar. Atravessei a porta e sentei-me entre as quatro paredes brancas, o tecto desfalcado e a madeira quebrada que me aleijava os pés.
Observei a parede à minha frente, porque hoje iria ser a minha mais nobre folha de papel, a minha tela mais rica com um senão. Eu era o ser mais pobre, o ser mais fraco, o ser mais infeliz, o ser sem sentido, como eu me chamava. Deslizei o pincel sobre a parede, uma vez, duas vezes, três vezes e mais vezes.
Por fim, começou a aparecer a imagem: era eu. Era o meu rosto dividido em três, tinha traçado uma linha acima da dos olhos, e abaixo dela tinha dividido o resto do rosto ao meio. O meu lado esquerdo era descrito por corvos a sair do olho, pelas lágrimas ensanguentadas, pelos meus meios lábios demoníacos, pelo deserto pálido da minha alma sem vida. O meu lado direito da minha face, era por sua vez descrito pelas pétalas de Outono que caíam da árvore que começava a debruçar-se para fora, pelo calor que se soltava dos meus meios lábios, pela relva, pelo lago, pela vida que rodeava esse lugar eterno.
A parte superior do meu rosto era representada por um ponto de interrogação, interrogação à minha pessoa. Sentei-me então desolado, deixei cair o pincel e lancei um olhar de onde estava para a janela e vi que já se tinha posto de noite, conseguia fitar as poucas estrelas que brilhavam e foi ai que surgiu a resposta. A resposta a todas as perguntas do meu ser, voltei o meu olhar sobre a minha terrível obra de arte e pensei:
“Num só ser encontram-se dois seres distintos, um incompreendido e desgraçado ao sofrimento e olhos do mundo, e outro destinado ao conhecimento e paz interna da sua alma.”
Somos capazes do melhor e do pior, mas cabe a nós decidir que caminho seguir.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

"Laus Deo"

Nesta estrada esburacada pelas memórias do passado, onde os meus pensamentos corrompidos encontram-se captados ou envolvidos por intensas chamas nas laterais do meu destino. Oiço os ruídos de dor, da cólera a escorrer-me pelo corpo ensanguentado e já quase sem alma.
Agora, o meu olhar volta-se para este segmento de alcatrão, para este pedaço de terra ainda por bater mais vida, vejo-me a estudar com todo o pormenor toda esta estrada, uma coisa é certa tem-se que aprender com os buracos ou erros que se vão cometendo, porque ainda existe muita estrada a construir, logo tenho que me certificar que a construo quase perfeita, sem um erro para não haver um menor deslize.
Concentro-me nas motos, nos carros e nos camiões que pela minha vagueiam. Comparo as motos aos meus pensamentos momentâneos, os carros às ideias que me irão acompanhar ou até mesmo perdendo-se num certo instante da minha vida, já os camiões são os meus maiores e melhores reflexos, embora por vezes bloqueados pelo medo ou pelo trânsito ou da via em obras a que chamo de preguiça.
Tudo isto fez-me esquecer por um segundo de que me encontrava no Hospital. Para mim, é como se tratasse de um campo de batalha, tinha o desejo de fugir dali porque relembrava-me da inutilidade da consciência humana sobre a vida, as pessoas só dão valor à vida quando a delas se encontra em risco. Triste, porque toda gente merece viver sendo ou não uma baixa de uma batalha da vida.
É assim que muita gente se sente todos dias, mil milhões se quiserem falar num número relativo mas grande, porém com uma particular diferença: uns lutam por mais dez anos, outros por um ano, meio ano, um mês ou só mais um dia de vida.
Por isso, resumo a estas réstias palavras de esperança para que te tornes num voluntariado anónimo da felicidade, de um sorriso, uma mão, um abraço ou ombro amigo ou de um desconhecido, dos lábios ténues ou do coração do(a) teu/tua namorado(a), dos alimentos, da roupa, dos livros escolares que podes dar a quem não têm, do sangue e talvez um dia os órgãos que podem destinar a salvação no último segundo de uma pessoa.
Chegou a Hora do Mundo pôr de parte a imagem e iluminar a vida dos que mais necessitam. Está nas tuas mãos, no teu sangue, na tua mente e no teu coração em fazeres o mais correcto.
Está na hora de Mudar.
L.D. – “Laus Deo”.

Cansaço

O cansaço abate-se sobre a minha mente, enquanto enrosco a tampa na caneta para a poder pousar sobre o caderno e parar a minha escrita por hoje. Não durmo à horas e enquanto o sono se perde diante dos meus olhos, vejo-me sentado numa esplanada a escrever continuamente, situado numa bela praça.
À medida que as minhas pestanas superiores iam caindo e as inferiores escalavam, de encontro uma à noutra, num forte embate de adormecimento. Enquanto podia ver uma rapariga a andar de patins, fazendo sempre o mesmo percurso vezes e vezes sem conta, mas só caminhava e não fazia mais nada de especial.
Relembrava-me uma das primeiras aprendizagens da vida: aprender a andar. Onde caíamos muitas vezes, até um dia conseguirmos erguer na perfeição o tronco sobre os membros inferiores. Agora que penso sobre os primeiros momentos da vida de um ser Humano, reflicto com razão que esses instantes são a base para o restante resto da existência.
Sempre que caímos ou falhamos num objectivo durante o nosso percurso, assola-nos um sentimento de tristeza, por vezes mágoa, ódio e desilusão. Mas quando nos levantamos sentimos quase indestrutíveis, fortes, felizes e iluminados de confiança.
Era este reflexo razoável que me tinha ocorrido enquanto a suave brisa e o calor do Sol se prendiam na minha mente, e eu adormecia aos poucos vendo a patinadora a desaparecer no meu horizonte, o som das rodas a rolarem sobre a praça a evaporar-se e o meu feliz pensamento a esboçar-me um sorriso no meu rosto e os meus olhos a fecharem-se.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Razão vs Coração

- Olha, preciso de falar contigo com alguma urgência. Porque da outra vez andámos à pancada e não chegámos a um consenso. Por isso, meu velho amigo, penso que é melhor sentarmo-nos a jogar com calma, talvez uma partida de xadrez. Concordas?
- Talvez, porque da outra vez não correu nada bem a conversa, aliás nem sequer deu para conversar. A raiva que sentia por ti, era enorme.
Puxámos duas cadeiras e uma mesa, montou-se o tabuleiro e as peças. Um verdadeiro campo de batalha, entre a razão, a lógica e os sentimentos. O ambiente encontrava-se silencioso, até que:
- Afinal, sobre o que desejas falar?
- Sobre o que te deixa frustrado.
- Sinceramente, só podes ser estúpido e egoísta para não o saber.
- Um pouco e até prefiro assim!
- Um pouco e até preferes assim? Tu não me irrites, preferes deixar-me sofrer para toda a eternidade, sabes-me o quanto custa gostar de algo e esse algo não bater o mesmo por mim? És egoísta, és estúpido e és burro!
- Deixa ser! Sinceramente, não preciso de ti para nada. Prefiro viver nesta burrice, neste egoísmo, do que voltar a gostar de alguém, do que amar alguém e acabar a sofrer, aliás isto já é contigo.
- Sabes bem que o que estás a dizer, não têm pés nem cabeça, não sabes? Julgava-te inteligente, mas penso que sejas como os outros todos.
- Ao menos, não traio. Não sou traído, e passei a guardar para mim o que faço ou o que deixo de fazer. Porque é com os erros que se aprende!
- Nesse ponto podes estar correcto, mas pára de me pôr de parte, eu também quero viver! Eu também quero amar! Não sirvo só para sofrer, chorar e rir de vez em quando com os teus amigos! Supostamente, eu e tu somos um só. Mas está mais que visto, que é impossível.
- Sentimentos… sentimentos… porque haveria de existir sentimentos?
- Não me venhas com filosofias. És um cobarde e sempre o serás. As tuas desculpas serão sempre as mesmas: «Porque não quero sofrer. Porque isto e porque assado.». Ao menos já pensaste em tentar? Era melhor se trabalhássemos para algo maior do que nós. Olha para o tabuleiro!
- Sim, o que tem?
- Pior cego é aquele que não quer ver.
- Afinal, não sou o único com filosofias.
- Cego, burro, casmurro. É um ditado, a única filosofia é a do jogo, e essa estás eventualmente a perder!
 - …
- Espero bem que um dia, não seja tarde, para compreenderes que, não podes viver só de sonhos e objectivos a vida toda. Também precisas de mim. Lembras-te quando andámos à pancada? Eras mais rápido, mais forte, mais inteligente. Só que te escapou algo, eu sou mais apto e é por isso que te encontras actualmente a perder o jogo.
- Que pretendes dizer com isso? Se te espancasse agora, voltarias a ficar negro!
- Lamento, mas isso não aconteceria. Eu adapto-me ao momento a uma velocidade infinita, cada batimento meu é uma jogada num campo de xadrez, se perder um peão, não faz mal. No fim, acabo por ganhar o jogo. Tal como, quando sofro, haverá uma altura que já não o farei. Sem mim, és igual a todos os outros. Mas comigo, és capaz de te elevar acima dos teus próprios sonhos!
- Como podes ter tanta certeza?
- Não tenho, mas deixo isso para ti e para veres com os teus olhos no futuro. Eu só tenho fé neste meu «sentir».
- Mas sabes que não vou ceder com facilidade.
- Não te preocupes, a tal, certamente te atingirá com uma seta capaz de trespassar o teu peito de aço.
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Nem sempre devemos bloquear os nossos sentimentos e separarmo-nos do nosso «coração», porque nem sempre vamos amar, nem sempre vamos ser felizes, mas também nem sempre vamos odiar, nem chorar. Seja porque motivo for, parem o tempo e reflictam sobre o que se passava à vossa volta.

«O ser humano não é à prova dos seus sentimentos, mas é um pequeno mágico que se quer iludir a si próprio.»


domingo, 17 de julho de 2011

Ladrão

- Vou-te roubar. – Disse-lhe ele.
Ela tremia por todo lado, não sabia o que fazer, estava demasiado nervosa.
- Dou-te o meu corpo, mas não me faças mal, não leves o pouco que tenho. – Pediu-lhe ela.
Ela começou-se a despir, mas ele por sua vez ousava só contemplar os seus olhos cinzentos, o seu cabelo castanho, a pele morena do seu corpo, que agora se encontrava nu. A saliência das suas mamas, dos seus bicos rosados, das suas ancas perfeitas, da curvatura das suas nádegas, à medida que se aproximava dela e via as suas costas. Notava cada vez mais a sua perfeição, tão pobre, mas rica numa beleza que poucos conseguiam ver.
- Não quero o teu corpo, nada que seja teu, vim-te roubar os teus lábios por momentos. – Sussurrou-lhe ao seu ouvido.
Ele bem sabia que, a única forma de tocar no coração, era através de um mero beijo, de simples toque de lábios, mas só por momentos. Beijou-a, limpou-lhe as lágrimas e, antes de partir, voltou a sussurrar-lhe ao ouvido:
- Vou continuar a roubar lábios, corações partidos por outros, porque pode ser que assim, um dia, encontre o tal «amor» como muitos sonham.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Chove

Chove, chove sem parêntesis, chove entre aspas uma acidez que à muito se acumulou neste céu. Gota a gota, escorre lentamente nesta enorme nuvem, seguidamente cai e corrói a bancada, mas não o suficiente para a corroer de todo.

Pouco a pouco, vejo a formar-se um rio ao longo da mesma, capaz de reflectir a tal nuvem, as tais gotas, estas que lhe foram um sacrifício suster. Não quis e até fez de tudo, mas talvez já devia ter chovido há mais tempo, quiçá tivesse livrado da dor.

Tanta gota, tanta acidez que não pára de cair, e de certeza que rio vai galgar as margens. Galga, salta por ali a fora e começa a escorrer até ao chão, mas vejo a soltar-se através de um minúsculo fragmento de luz que atravessa a água que agora cai desta enorme cascata, dá-se o reflexo, forma-se o arco-íris.

Ele limpa-lhe a sua nuvem, revela-lhe um sorriso e aclara o seu céu.

«Chorar, cerrar os olhos, acordar e transformar a noite num belo dia.»

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Esferas de Papel

Cinzentos, frios, mortos, meio cegos, frágeis meras esferas de papel por onde já não escorre tinta e as palavras que se podem ler nelas, vivem dias de solidão! Até parece pecado existir um Ser amaldiçoado. Agora, só existe a Lua sobre o horizonte que se encolhe sobre o mar, tristeza.

O que o Mundo era, o que o Mundo se tornou e eu pouco posso ver o futuro deste, levanto-me da fria areia, tiro a roupa e caminho até à água glacial, nunca senti tanto frio em toda a minha vida, nu contínuo e não desisto em querer morrer com ele.

Durante a minha vida tive a sorte de correr todo o Mundo, conhecer locais que ninguém imagina, mas não conheci nenhum lugar nele como este, é frio, é pálido, a luz só dura metade do ano, tal como a minha força e a outra metade é um descanso.

Sinto-o a parar aos poucos enquanto entro na água, não paro e nado até não ter pé… Penso que aqui deve chegar, olho para cima, vejo a vida a passar diante das minhas esferas de papel, e sinto aquele cheiro da maldição que me pregaram, da podre imortalidade que já há muito parou o meu coração.

Só não parou os cinzentos, frios, mortos, meio cegos olhos, lembranças, memórias de uma vida amaldiçoada sem perdão a viver num Mundo há muito extinto. Amanhã é a outra metade do ano em que vou voltar a viver outra vez, porque tenho força, calor, luz e até tinta para voltar a escrever, vou vestir-me e partir para outro lado.

Viver é um dia de cada vez, amaldiçoado ou não, só se vive uma vez.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Jardim

Ela não me proibiu de entrar no seu jardim, proibiu-me sim de a querer encantar com rosas, com bombons, com poemas, com cartas de amor, com toda a magia de um romancista. Ela não acreditava em cavaleiros andantes, príncipes encantados. Não acreditava em mim, no meu ser quando eu lhe dizia: “Quero ficar contigo “.

Agora chora de saudade, saudade de não me ter, saudade de me ter proibido, mas sou eu que me sinto cansado em escrever-lhe cartas, poemas e enviar-lhe rosas todos dias, perdi-me neste labirinto do meu coração, neste jardim sem saída, neste amor proibido.

Eu fiquei contigo mesmo quando não querias encantos, mas nunca pensei que chorasses de saudade e eu, eu nunca pensei em perder-me algures na tua terra do nunca.

sábado, 14 de maio de 2011

Vendedor de Esperança

«Atravesso esta areia que me queima, que me queima os meus pés nus, pouca a roupa que tenho e este Sol arde e rompe-me a pele com os seus raios. Meu burro, o meu animal de estimação que carrega a minha água para eu vender, e gastar o dinheiro para podermos comer e sobreviver. Alguém que me castigue, porque ele merecia uma vida melhor, tal como eu. Maldita seja a guerra na minha terra de ninguém.

Agora, cai a noite como se tratasse de um nevão e o frio que vem com ele passa pela minha tenda, aperta-me o pescoço, sufocando-me até não poder mais. Eu, eu vivo neste Deserto, agora ocupado pela guerra, pela miséria, pela pobreza mais pobre de todos os meus dezoito anos e é a isto que chamam lutar pela independência, lutar pela liberdade? Que ignorância a minha pelo tão pouco que sei, aliás como posso saber? Não há escolas por aqui…»

Isto escrito por Mohamed Salem Ali, e agora vejo este rapaz pela minha lente, neste deserto onde o ser mais frágil encontra-se mesmo à minha frente, tiro uma foto e vejo, vejo uma estrela por detrás dele que carrega uma intensa luz, uma luz de esperança e talvez seja isso que ele venda, uma água com esperança de que um dia a guerra acabe.


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Texto relacionado com a 4ª foto da coluna da esquerda

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Barco

Encontro-me à deriva no papel, baloiçando para os lados, atracado na minha casa à espera de partir, à espera de um lugar onde o destino me possa levar. Grito e libertam-se as amarras que me prendem.

Agora, vou por este papel, baloiçante e molhado, mas vou devagar para poder contemplar o que me rodeia. À direita tenho fábricas, rochas numa colina verde, mas incapaz de mudar uma paisagem alterada pelo Homem, pobre é agora o verde que não me deixa ver o seu esplendor, há alguns anos eu admirava-o, agora mal o vejo, cegado pela poluição.

À esquerda o meu destino, longe está ele, mas a ele vejo-o quase na perfeição, um cheiro de liberdade por poder andar durante mais algum tempo por este rio. À minha frente, vejo outros iguais a mim no estaleiro, uns a serem reparados por causa das más atitudes que tiveram ou erros que cometeram, e outros vejo-os a passarem por mim com olhos de quem não vê, infelizmente.

Para trás, observo o rasto do meu óleo e o meu porto, casa que mais tarde terei de voltar e ficar preso por ter ordens a cumprir. Mas certamente que trinta minutos de liberdade compensam uma meia-vida atracado e sem rumo.

sábado, 30 de abril de 2011

O melhor prato chama-se...

Há uns dias dei por mim a pensar no que faz mais falta ao Mundo e estive uma semana à volta disto, talvez tenha sido esta era a causa de não conseguir dormir nas últimas noites, mas eu acabei por encontrar o que fazia mais falta ao Mundo, às pessoas. Não era o dinheiro, não era o comer, era sim algo que se denominava de «Motivação».

Este era o denominador comum em todas as fórmulas matemáticas, em todo tipo de escrita, em todo tipo de desporto, em todo o Universo, em todos os teus objectivos, sonhos e em tudo o que tu fazes na Vida.

Muita gente, mas mesmo muita gente, tem falta de «Motivação» e isso faz com que desistam dos seus objectivos, dos seus sonhos e tenham medo, muito medo de viver e enfrentar a vida, como tal acomodam-se e tornam-se parasitas no Mundo.

Eu já fui um, mas foi ai que eu decidi vestir a farda de Chef e cozinhar para mim mesmo, refiz a receita do melhor prato do mundo e transformei-o em palavras, em vozes, em energia, em fé e alimentei a minha mente com isso. A quantidade de nutrientes que este prato podia fornecer era surreal, nem a própria ciência conseguia explicar tal facto, mas fazia-me mover Universos.

Chamei-lhe de «Motivação Universal» e a partir desse dia passei a comer a todas as refeições este prato, porque quando bem passado é capaz de elevar a capacidade de alguém que passou meia vida a dizer: «Eu não consigo, eu não sou capaz e a culpa é de todos os outros por eu não estar onde quero.», a dizer: «Eu consigo, eu sou capaz e não vou apontar os dedos aos outros, vou ser melhor a cada dia que passa.».

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Podes não ter telhado, podes não ter o que comer, podes não conseguir vingar no amor, podes ter uma vida de miséria, podes ter problemas familiares, podes ter uma doença grave, mas se há algo que não podes é desistir, porque se acreditares em ti, desejares ser melhor a cada dia que passa, trabalhares e teres paciência, mas muita paciência, conseguirás vencer qualquer tipo de problemas, conseguirás vencer até a doença mais grave no Planeta, conseguirás ser alguém, conseguirás ter a Vida como sempre sonhaste.


«O que a mente consegue conceber e acreditar, consegue conquistar.»

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O papel deixou-te uma mensagem

Se há algum espelho que reflecte melhor o meu ser e ao seu pormenor, esse espelho é o meu papel. Reflecte sonhos, pesadelos, amores, ódios, sorrisos, lágrimas, erros, passados, presentes e futuros.

Quando sonho alto, quando amo, quando sorrio seja no antes, no agora ou no depois, o papel aparece decorado ao máximo por uma textura viva e cheia de cores quentes. Mas depois o pior acontece, dou um erro por mais mil coisas certas que tenha feito, passo a ser o mau da fita e então vêm os pesadelos, os ódios, as lágrimas e mais erros.

Passo então a ter um papel rasgado, com sangue, com dor, cheio de cores mortas e eu afasto-me, afasto-me de tudo, mas por detrás estou a matar-me para tentar melhorar, para ser mais e melhor, para não errar outra vez no que já errei.

Lá volta o papel a ganhar vida e começa a florescer a cada segundo: ideias, pensamentos, sonhos e objectivos de vida bem traçados. Mas depois passa alguém por cima do papel, pisa-o com toda a força, deixa cair uma beata e transforma-lo em chamas, só que não pensaram que ao rebaixarem a sua maneira de ser e ao queimá-lo ele fez-se em cinzas.

Renasceu como se tratasse de uma Fénix, o papel ardia sem cessar com uma chama de tons azuis, amarelos e vermelhos. Senti que essa chama era o reflexo da minha força de vontade, toquei-lhe com as mãos por mera curiosidade e deixou o papel para passar a arder nas minhas veias, no meu corpo, na minha mente e na minha alma.

A chama começou a fazer com que eu me empenhasse mais, me dedicasse de corpo e alma aos meus sonhos, mas principalmente a viver a vida e aceita-la como ela é. Por mais baixo que me sinta, vou-me levantar porque amanhã é um novo dia. Por mais que erre, vou aprender a não errar porque amanhã é um novo dia. Por mais que caía, vou-me levantar porque amanhã é um novo dia. Por mais difícil que a vida seja, vou-me levantar porque o dia de amanhã só é vivido, sentido apenas por mim e mais ninguém.

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O papel deixou-te uma mensagem:

“Sonha e serás livre, luta e viverás a vida com que sempre sonhaste. A vida apenas depende de ti."

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Estrela

Vejo a Lua a desabar-se no horizonte e as estrelas a caírem na minha Terra. A noite está triste e ela chora, chora e chora. Perdeu todo o seu brilho, todo seu mistério. Agora não passa de um simples pano preto pregado a um tecto imaginário. Já não havia estrelas no céu - pensava eu. Mas num ínfimo segundo os meus olhos ficaram cegos por uma luz branca, que me caiu nos braços e arrastou-me largos metros pelo chão.

Quando dei por mim já era de dia, o Sol brilhava com toda a alegria, o seu calor enchia-me o corpo de energia, aquecia-me a alma e, o que quer que me tivesse atingido, deixou-me a marca de uma Estrela no peito. Não me lembrava de nada da noite anterior, mas esperei pela próxima e passei todas as outras a contemplar o seu maravilhoso céu.

Não tinha razões para o fazer mas algo me atraía: não era a sua beleza, a sua misteriosidade ou o seu brilho. Era algo que me tinha tocado no meu coração, porque de dia ele não batia, mas à noite eram batidas de um coração apaixonado, batidas ofegantes, batidas poéticas.

Mais tarde, houve uma noite que decidi passá-la na varanda, cheguei até adormecer e senti os teus lábios a tocarem nos meus, a tua mão a passar no meu rosto e o teu rosto a pousar-se no meu peito. Quando acordei já tinhas partido e eu já não tinha uma Estrela no peito, mas sim no Coração.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

«A…»

A. -Eu amo-te sabes?

M. -Eu também te amo.

A. -Então posso gritar ao Mundo que eu «Amo-te»?

M. -Não, nem te atrevas!

A. -Porquê?

M. -Porque não gosto.

A. -Vou gritar à mesma. «A…».

A. - Hmm, Hmm. «Tira-me a mão da boca».

M. - Promete-me que não gritas, prometes?

A. - Hmm, Hmm. «Sim».

A. - Está melhor assim.

A. - Posso então gritar baixinho para ti?

M. - Podes.

A. - Amo-te.

M. - E eu a ti meu amor.

A. - Ainda bem que me impediste de gritar ao Mundo que eu te amava, porque eu já o demonstro todos dias e isso diz tudo.

M. - Obrigada. (Sussurra-me ao ouvido)

"Não interessa o número de vezes que o dizemos, mas sim a forma como o dizemos e como o demonstramos."

sexta-feira, 25 de março de 2011

Memória

Eu não sou teu. Tu não és minha, mas o que temos será só nosso. Será nosso para sempre, será nosso mesmo que tenhamos outra pessoa, será nosso enquanto aqui estivermos e será assim só nosso e nunca igual. Porque é ao ser diferente que se cativa, se solta um sorriso, uma lágrima, um batimento cardíaco.

É nosso, o beijo e esse nosso cantinho. É nosso, o fervente desejo e esse nosso sonho. É nosso, o momento e esse nosso coração. É nosso, o sentimento e essa nossa traição. É nosso, a chama e esse nosso calor. É nosso, mas só nosso o que ambos temos e temos muito, mas muito amor.

Agora no presente, o que é nosso e só nosso, é o que resta na nossa memória.

domingo, 20 de março de 2011

Ouve-o...

Ouve-o a bater.

A cada segundo, a cada momento,

A cada olhar, a cada suspiro,

A cada beijo, a cada arrependimento,

A cada noite, a cada…


Ouve-o a bater.

A cada toque, a cada rascunho,

A cada poema, a cada vontade,

A cada paragem, a cada saudade,

A cada lágrima, a cada…


Ouve-o a bater.

A cada segundo, a cada momento,

Sou cada vez mais teu.

sábado, 19 de março de 2011

Ser poeta é ser…

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens!” – Florbela Espanca


Ser poeta é ser…


Ser poeta é ser um livro por escrever, é ser o mais puro sentimento

Que o Homem não consegue encontrar! É viver!

É ser único e mesmo assim ter o defeito

De amar com todo o prazer!


É ser o ser incompreendido

No meio da compreensão,

É ser um amor conquistado

Pelo coração.


E ser poeta é saber sonhar neste mundo,

É saber amar perdidamente

Contigo do meu lado.

«Amo-te...»

Amo-te, era o que eu sussurrava ao teu ouvido enquanto dormias abraçada a mim, esse teu corpo, embora pálido, estava quente, e foi a última coisa que eu vi e senti nessa noite em que dormi do teu lado. Quando acordei na manhã seguinte, tu tinhas partido e deixado uma carta em cima da minha mesa-de-cabeceira que dizia:

“Não te posso amar, porque tu vais amar-me mais do que eu sou capaz. O meu coração não é tão grande como o teu para transportar grandes quantidades de amor para uma pessoa só.

Perdoa-me.”

Na carta estava a marca dos teus lábios, através do batom vermelho que sempre usavas, tinha ainda o teu habitual perfume. Trouxe-me lembranças de um ano de namoro, um ano de felicidade intensa e que agora que já não estás, foi um ano que se afeiçoou como se uma estaca me tivesse trespassado o coração.

Sentia o meu corpo a cair, a cair…

Mais tarde quando acordei, não conseguia ver o meu Mundo, mas conseguia ainda sentir o cheiro do perfume e a carta que ainda estava presa à minha mão. Passaram-se então dois anos, que eu já não via o Mundo, mas continuava a ver os nossos momentos, logo escrevi uma carta para ti, na minha memória:

“Passou-se dois anos Soraia e eu já não sinto o teu corpo, o teu perfume, os teus lábios. Porque hoje continuo igual ao que era, continuo a ver como via e a sentir como sentia, com o Coração.

Eu perdoo-te, tal como quando eu dizia «Amo-te do fundo do coração». “

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

São as coisas mais simples que me fascinam...

É o vento quando passa no meu rosto ou o seu som que ecoa nos ouvidos, é o mar que me chama quando estou na praia e, refresca o meu corpo e a minha mente. É o sol que aquece o meu pensar, a minha alma. É um abrir e fechar de olhos, embora curto sobre a vida. É ver uma pequena joaninha a andar sobre um tronco de madeira, lentamente, mas vivamente. Ouvir o latido da minha cadela à varanda, um chamamento de atenção.

É o cair do pano da noite, do brilho do céu estrelado e daquelas nuvens vermelhas que lá estão. É aquele frio nocturno à beira rio, por qual caminho de vez em quando. É o meu deitar sobre a cama e o acordar no dia a seguir, que me faz mover para poder contemplar a Natureza de tudo o que me rodeia e da simplicidade que a embeleza.