Escrevo desde pequeno por linhas direitas a cruel realidade da vida, imunda de problemas, depressões, medos e erros. Só há três para cá, lembrei-me de entortar as mesmas linhas, então transformei os problemas em desafios ferozes e perigosos para serem vencidos, as depressões em repuxos de felicidade, os medos numa avassaladora coragem, os erros numa nova aprendizagem.
Tudo começou aos poucos, primeiro por letras que não me eram nada, a seguir chegaram as primeiras palavras, depois as belas frases e seguidamente os pequenos textos. Esta era a virtude de infância: escrever pouco e cheio de sentido. Uma maneira de poder organizar os múltiplos planos mentais sobre a minha existência, e ao mesmo tempo poder ausentar-me da realidade que se assentava diante dos meus olhos.
Hoje, a meio ou a um terço do percurso da minha longevidade, perdi a hipótese de escrever com razão. Organizei de tal forma o puzzle desde pequeno, que só me faltava uma única peça, era aquela verdade da qual fugi e que agora encontrei numa longa caminhada.
Então o puzzle completou-se, e revelou uma imagem vazia onde o seu único preenchimento era umas linhas azuis. Actualmente e em diversos momentos do meu dia-a-dia, pegava no lápis e não podia deixar de reparar que automaticamente as linhas se entortavam ou então mantinham-se direitas. Foi ai que reparei no que me tinha tornado.
Um artista despercebido e desassossegado, a derramar tinta das suas veias e escrever sobre as linhas do seu destino, a paisagem diante dos seus olhos, a troca sentida dos beijos em outrem, o suave timbre ou o horrível ruído da sociedade que passava e ecoava nos seus ouvidos, o caminhar e a correria dos seus pés na terra, na relva, no alcatrão ou na pedra da calçada.
Porém o mais importante encontrava-se nas suas pobres, sujas, mas jovens mãos: uma borracha, um lápis, uma caneta e um caderno. Toda a vida do Universo renascida no papel.
“De pequenino se torce o pepino”, tanto na escrita como na vida, ainda estou a aprender a ser algo maior e com menos erros: Um escritor e professor vivaz.
cada vez melhor filipe , adorei :)
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