sexta-feira, 16 de setembro de 2011

dis/sabores

Cheguei a casa frustrado com a vida, com os dissabores que fui tendo e aguentado até este hoje sobre os meus ombros. Entrei com a toda a fúria em casa, quase que partia a chave na fechadura da merda da porta. Quando entrei pelo quarto e o vi desarrumado, porque já não o arrumava há imenso tempo, contudo tinha decidido fazer o que nunca pensaria em fazer na minha vida.
Parti a mobília toda, peguei nos portáteis, no sistema de som, na televisão, na consola e mandei tudo para fora daquelas quatro paredes, tudo partido, estragado. Sem reparo. Olhei para o meu quarto deserto, só eu e estas paredes, este tecto e este chão. Sai à rua por uns breves momentos, dei voltas e voltas, parei e sentei-me inúmeras vezes pelas diferentes partes da minha pequena localidade, a contemplar as pessoas, a ouvir as suas conversas. Contemplava e ouvia «Tudo».
Até começarem a surgir palavras, depois pequenos versos, um poema, um texto e então apareceu a minha imagem abstracta numa parede. Esta ideia sem corda, sem ponta por onde se lhe pegue ata-se à volta da minha alma e faz-me desabar sobre o chão. Morto, pensei eu. Escutava mexericos ao meu redor quando os meus olhos se abriram era eu, a dar-me uma mão, um abraço, uma palavra motivadora mas ao mesmo tempo existia outro eu, a esmurrar-me, a troçar de mim, a deixar-me mal.
Foi ai que acordei, tinha perdido a noção do tempo e tinha adormecido num pequeno banco ao pé do pequeno rio. A noite já se estava a pôr, contudo eu tinha que me apressar a chegar a casa e fazer aquilo que tinha de ser feito.
Reentrei novamente em casa, a fúria tinha desaparecido, vi os móveis arruinados, não passavam mais do que uma madeira sem função. O som já não saia das colunas do sistema, os portáteis, a televisão e a consola tinham morrido. Repousavam para toda a eternidade. A casa estava abalada por um silêncio infinito.
Passei pelos estragos que tinha causado e rasgava um atento olhar sobre a porta do meu quarto, lembrei-me de ir buscar uma cadeira branca de plástico para me poder sentar, o escadote para poder subir mais alto, e os baldes de tinta mais os pincéis para a tarefa que ia concretizar. Atravessei a porta e sentei-me entre as quatro paredes brancas, o tecto desfalcado e a madeira quebrada que me aleijava os pés.
Observei a parede à minha frente, porque hoje iria ser a minha mais nobre folha de papel, a minha tela mais rica com um senão. Eu era o ser mais pobre, o ser mais fraco, o ser mais infeliz, o ser sem sentido, como eu me chamava. Deslizei o pincel sobre a parede, uma vez, duas vezes, três vezes e mais vezes.
Por fim, começou a aparecer a imagem: era eu. Era o meu rosto dividido em três, tinha traçado uma linha acima da dos olhos, e abaixo dela tinha dividido o resto do rosto ao meio. O meu lado esquerdo era descrito por corvos a sair do olho, pelas lágrimas ensanguentadas, pelos meus meios lábios demoníacos, pelo deserto pálido da minha alma sem vida. O meu lado direito da minha face, era por sua vez descrito pelas pétalas de Outono que caíam da árvore que começava a debruçar-se para fora, pelo calor que se soltava dos meus meios lábios, pela relva, pelo lago, pela vida que rodeava esse lugar eterno.
A parte superior do meu rosto era representada por um ponto de interrogação, interrogação à minha pessoa. Sentei-me então desolado, deixei cair o pincel e lancei um olhar de onde estava para a janela e vi que já se tinha posto de noite, conseguia fitar as poucas estrelas que brilhavam e foi ai que surgiu a resposta. A resposta a todas as perguntas do meu ser, voltei o meu olhar sobre a minha terrível obra de arte e pensei:
“Num só ser encontram-se dois seres distintos, um incompreendido e desgraçado ao sofrimento e olhos do mundo, e outro destinado ao conhecimento e paz interna da sua alma.”
Somos capazes do melhor e do pior, mas cabe a nós decidir que caminho seguir.

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