Cicatrizes frescas, marcadas no meu rosto. Feitas em batalhas duras e longas. Marcam-me o passado, quebram-se diante do meu pecado. Cortes de espadas, de balas. Tudo um conjunto de fracassos. Atentados sobre mim, que só me desfiguraram o rosto.
Um dia entrepuseram entre a espada e parede, o meu peito. Queriam espetar lá no fundo do meu coração, uma espada que na sua ponta continha um veneno letal. Amor, era como se chamava. O meu peito era rijo como pedra, o meu sangue frio como o gelo. Por isso, todos até hoje fracassaram em matar-me, em destruir-me, em arruinar-me.
Deixaram marcas, cicatrizes no meu rosto, com o significado de que mais ninguém olharia para mim. A partir daí, fechei-me como se fosse um livro com cadeado, ou um diário, onde toda gente pode contar o seu dia-a-dia, sem ninguém poder dar uma olhadela. Mas não, um livro era o mais certo. Cheio de pó, quando é tirado da prateleira há imenso tempo, tem uma história imensa para contar.
Fechei-me então, para o mundo, para mim mesmo. Anos mais tarde, decidi sair cá para fora, olhar-me ao espelho. E vi que… As cicatrizes tinham-se ido embora, já não residiam na minha cara, mas sim, no meu coração. As pessoas poderiam voltar a olhar para mim, mas nunca mais as permiti que me magoassem o coração, que o esquartejassem, que o desfizessem.
Não, preferia ter um rosto desfeito ao mundo, feio diante de um espelho, do que não ter coração. As cicatrizes ainda se mantêm frescas, mesmo passados anos a fio, o meu coração ainda bate, não por muito, mas também, não por pouco tempo. Há-de bater, enquanto eu quiser, enquanto tiver que ser.
São cicatrizes como estas, que criam sentimentos de ódio, dor e sofrimento. Consigo controlar isto tudo, como se fosse tão simples. Não consigo controlar o amor. É inexplicável, é algo que nos magoa e que ao mesmo tempo nos faz feliz, mas é impossível de ser controlado. Sentimentos que marcam-me o passado, quebram-se diante do meu pecado.