quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"De pequenino se torce o pepino"

Escrevo desde pequeno por linhas direitas a cruel realidade da vida, imunda de problemas, depressões, medos e erros. Só há três para cá, lembrei-me de entortar as mesmas linhas, então transformei os problemas em desafios ferozes e perigosos para serem vencidos, as depressões em repuxos de felicidade, os medos numa avassaladora coragem, os erros numa nova aprendizagem.
                Tudo começou aos poucos, primeiro por letras que não me eram nada, a seguir chegaram as primeiras palavras, depois as belas frases e seguidamente os pequenos textos. Esta era a virtude de infância: escrever pouco e cheio de sentido. Uma maneira de poder organizar os múltiplos planos mentais sobre a minha existência, e ao mesmo tempo poder ausentar-me da realidade que se assentava diante dos meus olhos.
                Hoje, a meio ou a um terço do percurso da minha longevidade, perdi a hipótese de escrever com razão. Organizei de tal forma o puzzle desde pequeno, que só me faltava uma única peça, era aquela verdade da qual fugi e que agora encontrei numa longa caminhada.
                Então o puzzle completou-se, e revelou uma imagem vazia onde o seu único preenchimento era umas linhas azuis. Actualmente e em diversos momentos do meu dia-a-dia, pegava no lápis e não podia deixar de reparar que automaticamente as linhas se entortavam ou então mantinham-se direitas. Foi ai que reparei no que me tinha tornado.
                Um artista despercebido e desassossegado, a derramar tinta das suas veias e escrever sobre as linhas do seu destino, a paisagem diante dos seus olhos, a troca sentida dos beijos em outrem, o suave timbre ou o horrível ruído da sociedade que passava e ecoava nos seus ouvidos, o caminhar e a correria dos seus pés na terra, na relva, no alcatrão ou na pedra da calçada.
                Porém o mais importante encontrava-se nas suas pobres, sujas, mas jovens mãos: uma borracha, um lápis, uma caneta e um caderno. Toda a vida do Universo renascida no papel.
                “De pequenino se torce o pepino”, tanto na escrita como na vida, ainda estou a aprender a ser algo maior e com menos erros: Um escritor e professor vivaz.
                

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Português

Tinha o hábito de caminhar todos dias de manhã cedo, antes do sol se levantar. Não existia quase ninguém nos passeios, excepto no passeio das paragens ou no alcatrão maciço das estradas, dentro dos transportes privados ou públicos. Seres independentes a dirigirem-se para os seus postos de trabalho, mais um mês a serem roubados aqui e ali, sem darem por isso. Pensava eu.
Já eu tinha um emprego simples, um emprego como sempre sonhei ter, um emprego meu e só meu. Preenchia-me a alma, a razão, o prazer, era uma total satisfação poder trabalhar assim. Era a escrita, a maior razão para me fazer levantar tão cedo, por vezes não dormia só para poder escrever. O meu emprego era igual ao de outros todos, com uma pequena particularidade: as minhas palavras eram as palavras de todos, residindo nelas a esperança de um amor, de uma felicidade ou um corte com a realidade num dado momento da vida, imaginação, sonhos, salvações…
Escrever para a minha pessoa, era uma conquista pessoal, era sobreviver aos perigosos momentos que nunca poderia vir a viver durante a minha existência, corrigir os erros descolados do meu ser, tornar as palavras em moléculas de oxigénio para os meus pulmões e água para o meu sangue.
Então saia de casa de caderno na mão, o meu lápis, a minha borracha e a minha caneta no estojo que se encontrava no bolso direito do casaco. No interior deste, tinha um maço de tabaco. Um cigarrinho trazia de volta o pensamento perdido algures na almofada da noite passada, sabia bem dormir sempre que me encontrava exausto.
O fumo soltava-se dos meus lábios e pairava diante dos meus olhos, embelezando a paisagem e aquilo que eu não conseguia absorver desse ser. Parei e apaguei o cigarro com o meu sapato. Abri e comecei a virar cada página do meu caderno, e fui lendo por alto os pequenos romances, os textos motivadores, os desastres da minha vida … Foi assim que escrevi o romance: “Fora da minha vida.”
Podia resumir este romance em poucas palavras: Tratava-se do meu primeiro amor e isto coincidiu com a minha fase adulta, que de certa forma aliviou a minha vida, foi um amor pesado, vivido com mais lágrimas do que sorrisos, com mais desconfiança do que confiança.
Hoje, ia reflectir sobre a minha escrita, a minha língua, a minha sociedade. O passado, o presente e o futuro desta. A língua portuguesa, a mais bela, mais vasta e mais saborosa de todas. Sim, a língua tem sabor, um sabor de conhecimento cosmológico.
Os termos vindos do latim e do grego, fundiram-se natural e omnisciente, tornando a nossa língua, numa língua só compreendida pelos Deuses. Depois os Árabes, atacaram-nos pelo Sul, vindos do Norte de África, mas mais tarde repelidos pelas nossas forças, contudo por cá ficaram mais textos, mais palavras e enriquecendo a nossa Deusa.
Fomos abençoados após tantos anos de sacrifício, após querermos mais e o melhor para nós. Zarpámos, com o conhecimento que nos foi dado, à descoberta do Mundo. Esbarrámos nas terras que depois chamaríamos de Brasil. Fomos até ao interior de África, contornámos o Cabo da Boa Esperança após vencermos as bestas que assombravam esse mar. Prosseguimos vitoriosos até chegarmos à Índia, onde desfrutámos de especiarias inexistentes em qualquer outra parte do Universo. Sacrificámos tanto para sermos o melhor povo possível, um ser Humano diferente e maior que qualquer outro, mas com os mesmo direitos e deveres de todos. Isto vagueava na minha mente mas continuei a pensar sobre o assunto.
A nossa história continuou ao longo dos anos e aos poucos fomos sofrendo vários deslizes, fraquezas e isso deixou-nos mais débeis. Fomos dando as nossas riquezas de mão beijada. Abdicámos de tudo com tanta facilidade. De tal forma, que hoje somos o lugar onde todo o Mundo defeca.
Contudo, salvou-se a nossa língua através das mentes mais iluminadas, ao longo das eras da nossa crónica. Fomos alvos de avisos e a verdade está à vista de todos. Passámos de um povo trabalhador, sonhador, inteligente para um povo que trabalha quase por obrigação, para um povo que só se sabe queixar dos problemas ao invés de resolvê-los, para um povo que é constantemente manipulado por outros, para um povo que vive à custa dos outros.
Tornámo-nos sem dúvida num povo de burros, de preguiçosos, de mentes fracas, de desilusões, de corrupção, de invejas, de preconceitos, de roubos. Um povo de merda que até a sua própria língua já vende.
Esvaziei o meu pensamento sobre o assunto pousando os olhos sobre o céu. Tenho o melhor emprego do Mundo, o emprego que já esteve nas mãos de Camões, de Eça, de Cesário, de Pessoa, de Saramago. O emprego de mudar as consciências, de chamar a atenção sobre os nossos comportamentos humanos, os nossos instintos animais. O emprego da palavra e da única razão de usá-la para tornar a vida de outra pessoa, do mundo melhor. Disse para mim mesmo.
Sendo assim, descrevo-me como sendo um ser com diferentes personalidades, por mais que procure dentro de mim por uma só pessoa, não consigo encontrar. Sou um pouco de toda gente com a diferença que só eu é que posso aprender com os meus próprios erros e esses são colados por mim, no meu caderno, com a minha língua, com a minha palavra.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Sons

Sento-me ensonado, todos os dias de manhã nesta escadaria da escola, entre o rés-do-chão e o piso superior. Acordo cedo, muito cedo e só tenho vontade de fechar os olhos por poucos segundos, dormir o pouco que não dormi na noite ou noites anterior. É assim todos os dias.
 Puxo o capuz para cima da cabeça, cobrindo quase toda a totalidade do rosto, só deixo os meus olhos cansados à vista de todos. Encosto-me à parede e deixo o meu corpo apodrecer entre o barulho dos passos gigantescos, das vozes ensurdecedoras que se fazem sentir nos meus ouvidos.
Os pequenos sons que consigo distinguir através da multidão, agarravam-se aos poucos à carne da minha consciência. Sons de beijos trocados entre parceiros, sons enigmáticos dos professores de matemática, sons das asas de um ser que voava, lá no pátio, para longe deste local. Sons da paixão, da inteligência e o timbre da liberdade que se repetia nas minhas memórias.
Sons! Sons de um outro eu, sons de um passado distante.
Acordo sobre a nota de um «Olá», de um «Não devias de estar aqui que já entrámos» de uma rapariga atraente, simpática e inteligente, que sorria na direcção dos meus olhos. Sons que ecoavam em todo o meu ser. Sons de mudança.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

dis/sabores

Cheguei a casa frustrado com a vida, com os dissabores que fui tendo e aguentado até este hoje sobre os meus ombros. Entrei com a toda a fúria em casa, quase que partia a chave na fechadura da merda da porta. Quando entrei pelo quarto e o vi desarrumado, porque já não o arrumava há imenso tempo, contudo tinha decidido fazer o que nunca pensaria em fazer na minha vida.
Parti a mobília toda, peguei nos portáteis, no sistema de som, na televisão, na consola e mandei tudo para fora daquelas quatro paredes, tudo partido, estragado. Sem reparo. Olhei para o meu quarto deserto, só eu e estas paredes, este tecto e este chão. Sai à rua por uns breves momentos, dei voltas e voltas, parei e sentei-me inúmeras vezes pelas diferentes partes da minha pequena localidade, a contemplar as pessoas, a ouvir as suas conversas. Contemplava e ouvia «Tudo».
Até começarem a surgir palavras, depois pequenos versos, um poema, um texto e então apareceu a minha imagem abstracta numa parede. Esta ideia sem corda, sem ponta por onde se lhe pegue ata-se à volta da minha alma e faz-me desabar sobre o chão. Morto, pensei eu. Escutava mexericos ao meu redor quando os meus olhos se abriram era eu, a dar-me uma mão, um abraço, uma palavra motivadora mas ao mesmo tempo existia outro eu, a esmurrar-me, a troçar de mim, a deixar-me mal.
Foi ai que acordei, tinha perdido a noção do tempo e tinha adormecido num pequeno banco ao pé do pequeno rio. A noite já se estava a pôr, contudo eu tinha que me apressar a chegar a casa e fazer aquilo que tinha de ser feito.
Reentrei novamente em casa, a fúria tinha desaparecido, vi os móveis arruinados, não passavam mais do que uma madeira sem função. O som já não saia das colunas do sistema, os portáteis, a televisão e a consola tinham morrido. Repousavam para toda a eternidade. A casa estava abalada por um silêncio infinito.
Passei pelos estragos que tinha causado e rasgava um atento olhar sobre a porta do meu quarto, lembrei-me de ir buscar uma cadeira branca de plástico para me poder sentar, o escadote para poder subir mais alto, e os baldes de tinta mais os pincéis para a tarefa que ia concretizar. Atravessei a porta e sentei-me entre as quatro paredes brancas, o tecto desfalcado e a madeira quebrada que me aleijava os pés.
Observei a parede à minha frente, porque hoje iria ser a minha mais nobre folha de papel, a minha tela mais rica com um senão. Eu era o ser mais pobre, o ser mais fraco, o ser mais infeliz, o ser sem sentido, como eu me chamava. Deslizei o pincel sobre a parede, uma vez, duas vezes, três vezes e mais vezes.
Por fim, começou a aparecer a imagem: era eu. Era o meu rosto dividido em três, tinha traçado uma linha acima da dos olhos, e abaixo dela tinha dividido o resto do rosto ao meio. O meu lado esquerdo era descrito por corvos a sair do olho, pelas lágrimas ensanguentadas, pelos meus meios lábios demoníacos, pelo deserto pálido da minha alma sem vida. O meu lado direito da minha face, era por sua vez descrito pelas pétalas de Outono que caíam da árvore que começava a debruçar-se para fora, pelo calor que se soltava dos meus meios lábios, pela relva, pelo lago, pela vida que rodeava esse lugar eterno.
A parte superior do meu rosto era representada por um ponto de interrogação, interrogação à minha pessoa. Sentei-me então desolado, deixei cair o pincel e lancei um olhar de onde estava para a janela e vi que já se tinha posto de noite, conseguia fitar as poucas estrelas que brilhavam e foi ai que surgiu a resposta. A resposta a todas as perguntas do meu ser, voltei o meu olhar sobre a minha terrível obra de arte e pensei:
“Num só ser encontram-se dois seres distintos, um incompreendido e desgraçado ao sofrimento e olhos do mundo, e outro destinado ao conhecimento e paz interna da sua alma.”
Somos capazes do melhor e do pior, mas cabe a nós decidir que caminho seguir.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

"Laus Deo"

Nesta estrada esburacada pelas memórias do passado, onde os meus pensamentos corrompidos encontram-se captados ou envolvidos por intensas chamas nas laterais do meu destino. Oiço os ruídos de dor, da cólera a escorrer-me pelo corpo ensanguentado e já quase sem alma.
Agora, o meu olhar volta-se para este segmento de alcatrão, para este pedaço de terra ainda por bater mais vida, vejo-me a estudar com todo o pormenor toda esta estrada, uma coisa é certa tem-se que aprender com os buracos ou erros que se vão cometendo, porque ainda existe muita estrada a construir, logo tenho que me certificar que a construo quase perfeita, sem um erro para não haver um menor deslize.
Concentro-me nas motos, nos carros e nos camiões que pela minha vagueiam. Comparo as motos aos meus pensamentos momentâneos, os carros às ideias que me irão acompanhar ou até mesmo perdendo-se num certo instante da minha vida, já os camiões são os meus maiores e melhores reflexos, embora por vezes bloqueados pelo medo ou pelo trânsito ou da via em obras a que chamo de preguiça.
Tudo isto fez-me esquecer por um segundo de que me encontrava no Hospital. Para mim, é como se tratasse de um campo de batalha, tinha o desejo de fugir dali porque relembrava-me da inutilidade da consciência humana sobre a vida, as pessoas só dão valor à vida quando a delas se encontra em risco. Triste, porque toda gente merece viver sendo ou não uma baixa de uma batalha da vida.
É assim que muita gente se sente todos dias, mil milhões se quiserem falar num número relativo mas grande, porém com uma particular diferença: uns lutam por mais dez anos, outros por um ano, meio ano, um mês ou só mais um dia de vida.
Por isso, resumo a estas réstias palavras de esperança para que te tornes num voluntariado anónimo da felicidade, de um sorriso, uma mão, um abraço ou ombro amigo ou de um desconhecido, dos lábios ténues ou do coração do(a) teu/tua namorado(a), dos alimentos, da roupa, dos livros escolares que podes dar a quem não têm, do sangue e talvez um dia os órgãos que podem destinar a salvação no último segundo de uma pessoa.
Chegou a Hora do Mundo pôr de parte a imagem e iluminar a vida dos que mais necessitam. Está nas tuas mãos, no teu sangue, na tua mente e no teu coração em fazeres o mais correcto.
Está na hora de Mudar.
L.D. – “Laus Deo”.

Cansaço

O cansaço abate-se sobre a minha mente, enquanto enrosco a tampa na caneta para a poder pousar sobre o caderno e parar a minha escrita por hoje. Não durmo à horas e enquanto o sono se perde diante dos meus olhos, vejo-me sentado numa esplanada a escrever continuamente, situado numa bela praça.
À medida que as minhas pestanas superiores iam caindo e as inferiores escalavam, de encontro uma à noutra, num forte embate de adormecimento. Enquanto podia ver uma rapariga a andar de patins, fazendo sempre o mesmo percurso vezes e vezes sem conta, mas só caminhava e não fazia mais nada de especial.
Relembrava-me uma das primeiras aprendizagens da vida: aprender a andar. Onde caíamos muitas vezes, até um dia conseguirmos erguer na perfeição o tronco sobre os membros inferiores. Agora que penso sobre os primeiros momentos da vida de um ser Humano, reflicto com razão que esses instantes são a base para o restante resto da existência.
Sempre que caímos ou falhamos num objectivo durante o nosso percurso, assola-nos um sentimento de tristeza, por vezes mágoa, ódio e desilusão. Mas quando nos levantamos sentimos quase indestrutíveis, fortes, felizes e iluminados de confiança.
Era este reflexo razoável que me tinha ocorrido enquanto a suave brisa e o calor do Sol se prendiam na minha mente, e eu adormecia aos poucos vendo a patinadora a desaparecer no meu horizonte, o som das rodas a rolarem sobre a praça a evaporar-se e o meu feliz pensamento a esboçar-me um sorriso no meu rosto e os meus olhos a fecharem-se.