quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Português

Tinha o hábito de caminhar todos dias de manhã cedo, antes do sol se levantar. Não existia quase ninguém nos passeios, excepto no passeio das paragens ou no alcatrão maciço das estradas, dentro dos transportes privados ou públicos. Seres independentes a dirigirem-se para os seus postos de trabalho, mais um mês a serem roubados aqui e ali, sem darem por isso. Pensava eu.
Já eu tinha um emprego simples, um emprego como sempre sonhei ter, um emprego meu e só meu. Preenchia-me a alma, a razão, o prazer, era uma total satisfação poder trabalhar assim. Era a escrita, a maior razão para me fazer levantar tão cedo, por vezes não dormia só para poder escrever. O meu emprego era igual ao de outros todos, com uma pequena particularidade: as minhas palavras eram as palavras de todos, residindo nelas a esperança de um amor, de uma felicidade ou um corte com a realidade num dado momento da vida, imaginação, sonhos, salvações…
Escrever para a minha pessoa, era uma conquista pessoal, era sobreviver aos perigosos momentos que nunca poderia vir a viver durante a minha existência, corrigir os erros descolados do meu ser, tornar as palavras em moléculas de oxigénio para os meus pulmões e água para o meu sangue.
Então saia de casa de caderno na mão, o meu lápis, a minha borracha e a minha caneta no estojo que se encontrava no bolso direito do casaco. No interior deste, tinha um maço de tabaco. Um cigarrinho trazia de volta o pensamento perdido algures na almofada da noite passada, sabia bem dormir sempre que me encontrava exausto.
O fumo soltava-se dos meus lábios e pairava diante dos meus olhos, embelezando a paisagem e aquilo que eu não conseguia absorver desse ser. Parei e apaguei o cigarro com o meu sapato. Abri e comecei a virar cada página do meu caderno, e fui lendo por alto os pequenos romances, os textos motivadores, os desastres da minha vida … Foi assim que escrevi o romance: “Fora da minha vida.”
Podia resumir este romance em poucas palavras: Tratava-se do meu primeiro amor e isto coincidiu com a minha fase adulta, que de certa forma aliviou a minha vida, foi um amor pesado, vivido com mais lágrimas do que sorrisos, com mais desconfiança do que confiança.
Hoje, ia reflectir sobre a minha escrita, a minha língua, a minha sociedade. O passado, o presente e o futuro desta. A língua portuguesa, a mais bela, mais vasta e mais saborosa de todas. Sim, a língua tem sabor, um sabor de conhecimento cosmológico.
Os termos vindos do latim e do grego, fundiram-se natural e omnisciente, tornando a nossa língua, numa língua só compreendida pelos Deuses. Depois os Árabes, atacaram-nos pelo Sul, vindos do Norte de África, mas mais tarde repelidos pelas nossas forças, contudo por cá ficaram mais textos, mais palavras e enriquecendo a nossa Deusa.
Fomos abençoados após tantos anos de sacrifício, após querermos mais e o melhor para nós. Zarpámos, com o conhecimento que nos foi dado, à descoberta do Mundo. Esbarrámos nas terras que depois chamaríamos de Brasil. Fomos até ao interior de África, contornámos o Cabo da Boa Esperança após vencermos as bestas que assombravam esse mar. Prosseguimos vitoriosos até chegarmos à Índia, onde desfrutámos de especiarias inexistentes em qualquer outra parte do Universo. Sacrificámos tanto para sermos o melhor povo possível, um ser Humano diferente e maior que qualquer outro, mas com os mesmo direitos e deveres de todos. Isto vagueava na minha mente mas continuei a pensar sobre o assunto.
A nossa história continuou ao longo dos anos e aos poucos fomos sofrendo vários deslizes, fraquezas e isso deixou-nos mais débeis. Fomos dando as nossas riquezas de mão beijada. Abdicámos de tudo com tanta facilidade. De tal forma, que hoje somos o lugar onde todo o Mundo defeca.
Contudo, salvou-se a nossa língua através das mentes mais iluminadas, ao longo das eras da nossa crónica. Fomos alvos de avisos e a verdade está à vista de todos. Passámos de um povo trabalhador, sonhador, inteligente para um povo que trabalha quase por obrigação, para um povo que só se sabe queixar dos problemas ao invés de resolvê-los, para um povo que é constantemente manipulado por outros, para um povo que vive à custa dos outros.
Tornámo-nos sem dúvida num povo de burros, de preguiçosos, de mentes fracas, de desilusões, de corrupção, de invejas, de preconceitos, de roubos. Um povo de merda que até a sua própria língua já vende.
Esvaziei o meu pensamento sobre o assunto pousando os olhos sobre o céu. Tenho o melhor emprego do Mundo, o emprego que já esteve nas mãos de Camões, de Eça, de Cesário, de Pessoa, de Saramago. O emprego de mudar as consciências, de chamar a atenção sobre os nossos comportamentos humanos, os nossos instintos animais. O emprego da palavra e da única razão de usá-la para tornar a vida de outra pessoa, do mundo melhor. Disse para mim mesmo.
Sendo assim, descrevo-me como sendo um ser com diferentes personalidades, por mais que procure dentro de mim por uma só pessoa, não consigo encontrar. Sou um pouco de toda gente com a diferença que só eu é que posso aprender com os meus próprios erros e esses são colados por mim, no meu caderno, com a minha língua, com a minha palavra.

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