Sempre naquela última semana antes do Natal, ele relembrava-se de todos os maus momentos, de todas as vergonhas e de todos os azares pelos quais tinha passado nesse dia, que para uns era tão especial, mas para ele era um dia como um outro qualquer. Todas as memórias de desgosto, vergonha e dor que tinha faziam-no sentir raiva e ódio sobre si.
Esse dia era sempre marcado pela chegada do pai a casa num estado alcoólico desagradável, trazendo consequências para a mãe. Esta sujeitava-se a ficar com a cara bolachada e um corpo cheio de nódoas negras, enquanto o rapaz se escondia dentro do armário e via tudo o que se sucedia. O pai envergonhava-o tanto que este não conseguia arranjar amigos e isso deixava-o desesperado e fraco, por não ter ninguém que o pudesse ajudar. Eram estas as memórias que tornavam o Natal tudo menos especial.
Então ele chorava à beira de uma janela do seu quarto, onde podia ver outras crianças a brincarem na neve com uma felicidade enorme, da qual ele tinha inveja. As lágrimas que caíam pelo seu rosto, que rapidamente se congelavam e traziam as suas memórias à deriva. Uma dessas lágrimas parecia um pequeno cristal que, ao cair-lhe do rosto e ao ver que se quebrava no chão, partiu a sua dor em mil pequenos pedaços.
Algo que nunca lhe tinha acontecido. Foi nesse momento, que ganhou coragem e força para lutar contra aquele pesadelo que já durava há uns oito anos, pelo menos daquilo que ele se lembrava. Porque se existia alguém que merecia, nem que fosse só por um dia sentir a verdadeira essência do Natal, era ele.
Foi preparar uma mala, pôs nela dois pares de meias, dois boxers, duas calças de ganga, duas camisolas, dois pijamas, a sua carteira, o seu caderno, um lápis e uma afia. Com a mala preparada, deixou uma nota em cima da mesa da cozinha para a mãe poder ler:
“ Vou fugir de casa, tenho 16 anos e não consigo viver mais neste inferno. Vou partir para longe e não me procures. Levo o essencial comigo, o meu material de escrita, o meu mundo às costas.
Vou procurar nesta semana a verdadeira essência do Natal e irei escrever sobre ela, um conto. Contudo, volto no dia a seguir ao Natal. Espero que tenhas coragem de fazer o mesmo que eu, foge também mãe, não quero ver-te sofrer, não te quero ver chorar mais.
Foge e volta no mesmo dia que eu. Iremos juntos à polícia e falaremos sobre tudo o que se passou e que se poderá voltar a passar.
Amo-te Mãe e espero que me compreendas, eu volto. “
O rapaz saiu de casa sem a mãe notar. Contornou todas as esquinas, percorreu todos os caminhos e assim continuou, até estar muito longe de casa. No seu caminho procurou um abrigo, onde fosse capaz de fazer uma pequena fogueira para se aquecer. Foi então que encontrou uma ponte que tinha um túnel, onde supostamente já tinha passado um rio há muitos anos, antes de ter secado. Pelo menos, foi o que ele tinha lido sobre a história da sua cidade.
Ele desceu as escadas que a ponte tinha até ao túnel e à medida que descia, podia-se ouvir a voz de um rapaz a cantar e de uma guitarra a ser tocada de forma majestosa e clara. Ao mesmo tempo ouvia-se um rapaz a rabiscar um papel, como se fizesse desenhos. Os sons aumentavam. Foi então que desceu completamente as escadas e viu dois vultos ao meio do túnel, à volta de uma fogueira.
Aproximou-se devagar e devagar, porque não sabia como aqueles estranhos poderiam reagir à sua presença. Chegou à beira de ambos e a balbuciar soltou um “Olá”. Aquelas duas personagens viraram-se e olharam para ele de cima a baixo, e responderam da mesma forma ao rapaz.
Depois de ver que aqueles dois rapazes tinham mais ou menos a sua idade, acabou por se apresentar. Disse que se chamava António, tinha dezasseis anos e que tinha fugido de casa. O que cantava e tocava chamava-se Miguel e o outro que parecia ter uns dezoito anos, e desenhava coisas que nunca se tinha imaginado, chamava-se Jorge.
O António perguntou-lhes o que faziam ali e eles disseram que tinham fugido também de casa. O Jorge fugiu porque os pais não o deixavam seguir Artes e o Miguel, porque os pais achavam que ele não teria nenhum futuro na música. António explicou-lhes os porquês de ter fugido de casa.
Então estavam juntos três artistas, um escritor, um músico e um desenhador. Começaram por mostrar os trabalhos uns aos outros, começaram por se conhecerem melhor. Assim foi até dia vinte e cinco, até ao dia do Natal. António sabia que dia vinte e seis, iria voltar a casa e aconselhou os seus melhores amigos a fazerem o mesmo, a lutarem contra os problemas, pelo que gostam e por tudo aquilo que é capaz de lhes fazer feliz.
No dia a seguir, António caminhava em direcção a casa e separava-se dos amigos que tinha feito naquela semana. Quando chegou às portas de casa, viu o seu pai a ser algemado. António olhou para a sua mãe e viu que ela já não chorava, mas sim, sorria como se fosse o romper do Sol no Inverno entre as nuvens mais negras ou do nevoeiro mais denso.
Podia-se dizer que o Inferno tinha acabado. Anos mais tarde, podia-se ver três homens com as suas mulheres, com uma casa, com filhos e a fazer o que mais gostavam de fazer. Tudo isto, porque tiveram coragem para acabar com as injustiças que a vida lhes tinha imposto, mais a um do que a outro.
Actualmente, António acabaria de escrever o seu novo conto:
“O rapaz do Conto de Natal”
Através do qual, ele conseguiria dinheiro mais que suficiente para criar uma instituição contra a pobreza, toxicodependência, alcoolismo, violência doméstica, entre outros problemas da vida.
wow :o
ResponderEliminarAdoro Filipe!
Parabens feio :')
<3
Está muito bom Filipe! Fácil leitura e não cansa...
ResponderEliminarContinua! =D