quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ano Novo

Vou-vos contar algo que, felizmente, ainda não aconteceu, mas conto já com lágrimas congeladas no rosto o que se sucedeu. Esta história verídica, retrata a pessoa que era e na razão porque me tornei no que se hoje, se leres esta mensagem algures no jornal local, na faixa da literatura, irás perceber que não morri, isto se ainda te lembrares de quem sou.
Eram um casal com cerca de vinte anos de idade, ele um ano mais velho que ela. Conheceram-se num momento de infância, talvez na praia, ouvindo as gaivotas e vendo as ondas a caminharem na areia seca. Não sei ao certo, só sei que tinham uma atracção pela Natureza, pelo bem-estar que lhes causava e pela apatia que esta lhes retirava.
Ele desde de pequeno demonstrava uma visão ampla sobre a escrita, uma imaginação fenomenal para a idade que tinha, mas nunca se convenceu de que era um romântico nato. Porque na verdade, ele só vivera o amor uma vez e actualmente era esse que sentia.
Ela desde de muito nova se tinha tornado numa artista perspicaz, retratava não só o real, mas como a sua imaginação, como de certa forma o que via tivesse outra           mensagem. Costumava dizer: “Cada rosto era uma nova paisagem”. Contudo, ela negava ser amante de um só momento, era sim apaixonada por um conjunto deles.
Talvez fosse por isso, que eles eram felizes e compreendidos. Viviam a emoção até ao fim, até mesmo quando chegou o fim.
Tudo começou com uma atribulada organização para a passagem de ano, andavam demasiados cansados e como sempre queriam que tudo estivesse certo, para passarem uma boa noite de ano novo, como fizeram anteriormente, fosse num hotel à beira-rio onde pudessem jantar à luz das velas na varanda do seu quarto, ouvindo os peixes a saltar na água e respirando o ar puro ou numa casa alugada num monte onde pudessem sair pelos caminhos de terra batida até encontrarem uma árvore em que se sentassem agarrados e desfrutassem de um momento único e só deles.
Contudo, encontravam-se atrasados, muito atrasados e a pressão sendo questão, para ele era fácil de suportar, para ela era mais complicado. Então, ela cedeu e pediu-lhe que este ano fosse diferente. Ela pediu um tempo para estar só consigo mesmo e se divertir com as suas amigas. Pois, na altura ele assentiu de coração partido, com um sorriso estampado no rosto mas com compreensão. Nada lhe respondeu e voltou para casa. Ela não lhe fez questão de o chatear, porque sabia que ia estar triste e que iria querer estar sozinho com os seus pensamentos como sempre o fazia. Só que não era isso que ele queria nessa altura.
Deram-se as doze badaladas da meia-noite, no sábado do dia 31 de Dezembro, ele encontrava-se sentado no carro de porta aberta sobre o cabo, a enxergar o mar com lágrimas congeladas no rosto do frio que se fazia naquele negrume. Tinha bebido bastante, talvez, umas três garrafas de vodka pura e uma de licor beirão, até o álcool tinha de ser puro como a natureza, tudo menos as tristes palavras que se encontravam presas na sua garganta e que não as conseguia pronunciar. Talvez, não valesse a pena.
Sentiu o telemóvel a vibrar no bolso e o nome dela aparecia no ecrã: Cláudia. Era o nome da sua namorada ou ex, ele estava confuso e não sabia o que haveria de fazer, atender ou não atender o telemóvel. Deixou vibrar mais um pouco até se desligar. Uns segundos depois ela voltou-lhe a ligar e ele atendeu.
- Olá, que andas a fazer? – Perguntou ela.
- Eu? Estou a ver o mar a bater na rocha, nesta solidão intransigente. Já não a sentia desde que os meus pais morreram. – Respondeu ele.
- Não estás com os teus amigos?
- Que amigos? Aqueles de que abdiquei para poder estar contigo e por causa disso me deixaram? Eles bem me avisaram que este dia podia chegar. – Desligou a chamada e desligou o telemóvel.
- Eu não… Estou? Ricardo? – A chamada tinha caído. Ela ligou-lhe mais umas cem vezes e dizia que o telemóvel encontrava-se desligado.
No dia seguinte ao fim da tarde o carro foi encontrado numa ravina, não se encontrava ninguém dentro do mesmo e nem ao seu redor, a não ser as garrafas partidas no chão, o telemóvel e uma carta sobre o banco.
Procuraram pelo seu corpo no mar e só encontraram a sua roupa. Declararam-no como morto. Ela tinha sido a última pessoa a vê-lo. Só não sabiam que ele estava vivo, muito vivo e ciente do que tinha feito. Na altura a razão sobrepôs-se a qualquer afecto, pois era isso que acontecia quando ele bebia, por isso ele bebia pouco porque necessitava do sentimento para amar, mesmo tendo uma razão louca e apaixonante, precisava de sofrer com o mesmo.
Passaram-se cinco anos desde dai e dentro desse espaço de tempo, ele aprendeu tanta coisa fora do seu mundo de palavras, aprendeu programação avançada e desta forma conseguiu “hackear” os sistemas informáticos do governo e criar, por sua vez, um novo nome, uma nova identidade e mudar de universidade. Tornou-se num médico de renome num curto espaço de tempo. Envelheceu com o tempo e o treino diário aliado aos poderosos suplementos alterou-lhe as formas do corpo, tinha um físico bem melhor do que aparentava há alguns anos, mais definição, maior massa e simetria muscular. O rosto parecia rejuvenescido e a nova barba, cuidada, dava-lhe um outro charme.
Porém, durante esses anos recusou-se a ter outra pessoa, houve muitas pretendentes mas ele queria a outra e só a outra, porque não havia nenhuma outra como a outra, a outra que sempre esteve com ele desde miúdo. A Cláudia.
Voltou ao fim de cinco anos à cidade natal, e esta encontrava-se tal e qual como aquando da sua partida. Não vazia, não remota, cheia de turistas e com os mesmos habitantes. Passou de carro na avenida principal e abriu o vidro e pediu uma indicação a uma menina que acabara de sair de uma loja:
- Boa tarde. - Fitaram-se por uns breves momentos.
- Desculpe, conheço-o? – Perguntou ela.

- Penso que não mas podemo-nos conhecer noutro dia. Eu queria-lhe perguntar se existe alguma casa à venda aqui nesta pacata vila? – Conhecemo-nos mais do que imaginas, pensou ele.
- Acho que o meu namorado não ia achar muita piada a isso, mas respondendo à sua pergunta, sim e só por acaso a casa do meu ex-namorado, que fica à frente da minha. – Respondeu com uma voz trémula. Ele pediu-lhe a morada e ela assentiu ao pedido. Num abrir e fechar de olhos ele voltava a pisar o chão que sempre foi dele.
Agora, quando leres, e isto se o leres, este trecho de texto na secção de literatura no jornal do Seixal, relembra-te de que eu voltei por ti e sem querer estragar o amor e a felicidade que sentes actualmente, saberás com certeza onde me encontrar.
Do teu lado, como sempre. 

2 comentários: