quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A vós, um muito obrigado.

Quero cair num sono profundo, mas um sono quase sem fim. Assim terei, talvez, todo o tempo do mundo para encontrar aquilo que perdi. Uma chave? Um livro? Um lápis? Uma afia? Uma borracha? …? Já nem sei.

Cheguei-me à beira da cama, pus os phones nos ouvidos, a música a tocar. Tirei uma dezena de comprimidos para dormir da caixa, pu-los na boca e bebi o meu copo de água, talvez o meu último. Sentei-me na cama, observei para o tecto e o meu quarto, senti que era um adeus, provavelmente era melhor assim. De uma forma que ninguém iria suspeitar, pelo menos logo naquele momento.

A minha cabeça caiu sobre a almofada e eu? Eu já tinha partido, mas não há muitos segundos. O meu coração estava parado. E eu? Eu andava à procura do que tinha perdido nas minhas recordações, na minha mente. O tempo ali parecia eterno, mas na vida real, eu estava morto há quatro minutos, não ouvia ninguém do lado de fora.

Continuei a andar pelo trilho de memórias deixado por algo ou alguém. O caminho era um pouco obscuro, infeliz, chuvoso, mas com uma vontade incomum. Porque aos poucos e poucos, os passeios iam aumentando de altura, tal como muralhas que são construídas pedra sobre pedra. Um caminho com vontade própria ou era fruto da minha imaginação? Eu estava morto, era uma alma à espera da luz, mas eu via cada vez menos no caminho, estava mais escuro.

Cada passo dado, era mais difícil que outro, estaria a subir uma colina? Uma montanha? Estava cego, mas tinha chegado ao fim. Já não dava para continuar, mas de repente vi uma luz a vir detrás de mim, era o fogo de uma lareira. Um sinal de esperança ou uma armadilha preparada por mim? Para que ninguém descobrisse o que ia na minha cabeça? Já nem sei.

Tudo o que ali se passava, era como se eu já não me conhecesse a mim próprio, porque simplesmente não sabia de nada. Tinha personalidade múltipla? Existia mais do que um “eu”? Tantas perguntas e tanto medo de saber as respostas.

Sentei-me e aqueci-me junto daquela fogueira. Tinham passado mais quatro minutos e os meus órgãos já estavam a auto-destruir-se, felizmente eu não sentia dores. Comecei a ouvir passos a caminhar na minha direcção, não muito perto e não muito longe. À medida que se aproximava, eu começava a temer o que viria ali.

Parou e olhou para mim, mas fingiu que não estava lá ninguém. Sentou-se e tirou da mala que carregava às costas uma chave, um livro, um lápis, um afia, uma borracha, um coração e disse:

-Que escolhes? Que mais desejas ou… Andas à procura do que perdeste?

Eu não sabia o que dizer, era eu a falar para mim mesmo. Levantei-me e perguntei:

-Quem és? De onde vens? Como sabes quem eu sou?

-Eu sou tu, venho de onde tu vens e sei quem tu és, porque este lugar é o teu lugar ou melhor dizendo, o nosso lugar.

-Impossível, és fruto da minha imaginação.

-Sou pois, tal como tudo o que escreveste.

-Nem tudo que escrevi era fruto da minha imaginação, era parte de mim.

-Tal como eu sou.

-…

-Que escolhes? Que mais desejas ou… Andas à procura do que perdeste?

-Outra vez essa pergunta?

-Sim, não vieste à minha procura?

-Não, eu vim à procura do que perdi.

-Então? Foi a mim que me perdeste, ou já te esqueceste?

-A ti? Já me esqueci?

-Sim, foi a mim que me perdeste.

-…

-Não percebes?

-Não.

-Queres que eu te explique?

-Já agora.

-A partir do momento que quis deitar tudo da minha vida para trás, porque eu não conseguia superar as dificuldades, porque não conseguia ver bem o mundo, porque sentia-me pior que ninguém. Escolhi pôr um fim à minha vida e dizer um “até nunca mais” ao mundo, aos meus pais, à minha irmã, aos meus melhores amigos, aos meus amigos, a tudo de bom e mau da vida. Foi isto que preferi.

-Mas isso fui eu que fiz!

-Tu como quem diz, eu. Mas agora que aqui estou, volto a perguntar-te: uma chave, um livro, um lápis, um afia, uma borracha, um coração, que escolhes? Que mais desejas ou… Andas à procura do que perdeste?

-Porquê?

-Porque eu quero viver.

-Tu?

-Sim, eu!

-Porquê?

-Porque agora que nos encontrámos, agora que te encontraste, agora que estamos juntos e prontos para viver, não vale a pena estar morto ou vale?

-…

-Daqui a dois minutos, podemos começar a dizer o adeus a nós.

-…

Nada disse e esperei.

-Pela ultima vez, que escolhes? Porque desta escolha não poderás voltar atrás.

-Eu, eu não sei.

-Não tens amor à vida?

-Não.

-Mas eu tenho.

-Se eu sou tu, como tu tens e eu não?

-Eu vivo dentro de ti, eu sou aquilo que para ti está morto. Mas eu deixei aqui uma lembrança dentro do teu cérebro, no caso de um dia quereres pôr fim à tua vida. Eu sou aquilo com que amas, eu sou aquilo com que levantas todos dias, eu sou aquilo que te dá energia para lutares sem cessar, eu sou aquilo que quando estás triste te apetece desaparecer, eu sou aquilo que um dia irá parar de forma natural, eu sou… o que eu sou?

-Tu és…

-Escolhe, por favor.

-O coração.

-Obrigado.

-Não agra… .

Senti o meu corpo a ser puxado por fortes impulsos eléctricos, a uma velocidade estrondosa… e mais uma vez, outra vez… Não tive tempo de agradecer ao meu coração, porém os impulsos eléctricos iluminaram todo o caminho que tinha percorrido, mas que não conseguia ver. Vi molduras, vi espelhos da minha vida, vi os meus melhores momentos e os meus piores momentos, vi os meus amigos a serem felizes e eu sempre do lado deles, vi a minha irmã a entrar na Universidade, vi a minha namorada a sorrir para mim, vi-me a chorar por todas as coisas que não tinha feito, vi-me a chorar por tudo o que queria ter e que não tinha, vi-me a chorar por lutar e não conseguir obter o que queria, vi-me a chorar pelo meu passado e pelo qual lamentava imenso, infelizmente. Mas depois de tudo o que tinha visto, apercebi-me que independentemente do que tenha acontecido, tudo isto e tudo aquilo, só me tornou a pessoa que sou hoje. Não posso ser feliz de todo, mas é para lá que eu caminho… Fui puxado para uma luz ao fundo do túnel…

-Já acordou? (Ouvia-se o choro de imensas pessoas)

-Já.

-Filho? Mano? Filipe? (Eram os meus pais, a minha irmã, a minha família, a minha namorada, os meus amigos)

Olhei-os a todos no rosto, estavam tristes, desalmados e alguns com uma vontade enorme de me bater, mesmo que eu tivesse atravessado para o outro lado. Algo que não aconteceu por pouco. Pus a mão ao peito e disse:

-Obrigado coração, obrigado pais, obrigado mana, obrigado família, obrigado namorada e amigos.

Eles ficaram sem resposta, mas pararam de chorar. Jurei-lhes que não faria mais algo do género na minha vida. Porque se não fosse por eles, eu já cá não estaria e sem eles não era o que sou hoje.

Só vivendo a vida, é que poderei descobrir se serei feliz. Só vivendo a vida, é que posso abrir portas para o futuro, construir novas amizades, dar mais a alguém que precise mais que eu, dar uma mão para poder salvar o mundo, dar um sorriso a alguém para ser feliz, nem que seja só por um dia, por um só segundo. Só vivendo a vida, é que poderei escrever um livro, e mesmo que ninguém o leia, estará guardado na prateleira cheio de pó, mas sempre gravado na memória. Só vivendo a vida, é que posso escrever sobre a mesma e dizer quanto gosto de certas pessoas. Só vivendo a vida, é que posso afiar o meu lápis e fazer durar eternamente a minha família, o meu amor, os meus amigos e eu. Só vivendo a vida, é que posso dar uso à borracha, não para apagar os erros, mas sim para emenda-los.

Só vivendo a vida, é que poderei dizer do fundo do coração e independentemente dos bons ou maus momentos, que passámos, passamos ou passaremos:

“Amo-vos a todos: Família, Namorada e Amigos”

-A vós, um muito obrigado.


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Quero agradecer a todos os meus amigos, a quem falo todos dias, com quem estou todos dias, com quem conto todos dias, por quem me levanto todos dias para os ajudar, estou cá sempre para vocês.

Mas especialmente a vós: Tatiana Graça, Leandro R. e Inês P. É em vocês que me inspiro maior parte das vezes, é por vocês que cá estou maior parte das vezes, é por vocês que levanto todos dias. Vocês são os amigos verdadeiros que um homem, não agora, mas um dia serei, pode ter.

Obrigado!

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